domingo, 9 de outubro de 2011

POEMA FALADO: Oração de São Francisco de Assis



No mês de São Francisco de Assis, Bienvenue-Ami homenageia este que foi, sem dúvida, uma dos maiores homens que a humanidade gerou, o Pobrezinho de Assis. Tal qual Jesus Cristo, o legado de São Francisco é um legado de amor, respeito e paz entre os seres que habitam este planeta, como pode ser visto na sua Oração pela Paz, que traz em seus versos uma mensagem cunhada na era medieval, mas cada vez mais urgente e necessária no mundo contemporâneo.

Eis o texto: 

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar,
que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado, pois, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna”.




É dando que se recebe


Há duas economias: a dos bens materiais e a dos bens espirituais. Elas seguem lógicas diferentes. Na economia dos bens materiais, quanto mais você dá bens, roupas, casas, terras e dinheiro, menos você tem. Se alguém dá sem prudência e esbanja perdulariamente acaba na pobreza.

Na economia dos bens espirituais, ao contrario, quanto mais dá, mais recebe, quanto mais entrega, mais tem. Quer dizer, quanto mais dá amor, dedicação e acolhida (bens espirituais) mais ganha como pessoa e mais sobe no conceito dos outros. Os bens espirituais são como o amor: ao se dividirem, se multiplicam. Ou como o fogo: ao se espalharem, aumentam.

Compreendemos este paradoxo se atentarmos para a estrutura de base do ser humano. Ele é um ser de relações ilimitadas. Quanto mais se relaciona, vale dizer, sai de si em direção do outro, do diferente, da natureza e até de Deus, quer dizer, quanto mais dá acolhida e amor mais se enriquece, mais se orna de valores, mais cresce e irradia como pessoa.

Portanto, é “dando que se recebe”. Muitas vezes se recebe muito mais do que se dá [...] Quando alguém de posses dá de seus bens materiais dentro da lógica da economia dos bens espirituais para apoiar aos que tudo perderam e ajudá-los a refazer a vida e a casa, experimenta a satisfação interior de estar junto de quem precisa e pode testemunhar o que São Paulo dizia: “maior felicidade é dar que receber”(At 20,35). Esse que não é pobre se sente espiritualmente rico.

Vigora, portanto, uma circulação entre o dar e o receber, uma verdadeira reciprocidade. Ela representa, num sentido maior, a própria lógica do universo como não se cansam de enfatizar biólogos e astrofísicos. Tudo, galáxias, estrelas, planetas, seres inorgânicos e orgânicos, até as partículas elementares, tudo se estrutura numa rede intrincadíssima de inter-retro-relações de todos com todos. Todos co-existem, inter-existem, se ajudam mutuamente, dão e recebem reciprocamente o que precisam para existir e co-evoluir dentro de um sutil equilíbrio dinâmico.

Nosso drama é que não aprendemos nada da natureza. Tiramos tudo da Terra e não lhe devolvemos nada nem tempo para descansar e se regenerar. Só recebemos e nada damos. Esta falta de reciprocidade levou a Terra ao desequilíbrio atual.

Portanto, urge incorporar, de forma vigorosa, a economia dos bens espirituais à economia dos bens materiais. Só assim restabeleceremos a reciprocidade do dar e do receber. Haveria menos opulência nas mãos de poucos e os muitos pobres sairiam da carência e poderiam sentar-se à mesa comendo e bebendo do fruto de seu trabalho. Tem mais sentido partilhar do que acumular, reforçar o bem viver de todos do que buscar avaramente o bem particular. Que levamos da Terra? Apenas bens do capital espiritual. O capital material fica para trás.

O importante mesmo é dar, dar e mais uma vez dar. Só assim se recebe. E se comprova a verdade franciscana segundo a qual “é dando que recebe” ininterruptamente amor, reconhecimento e perdão. Fora disso, tudo é negócio e feira de vaidades (por Leonardo Boff).


Postado por Salvador na Sola do Pé

domingo, 25 de setembro de 2011

Poema Falado - Poema dos olhos da Amada


Il n'y a pas de Garbo! Il n'y a pas de Dietrich! Il n'y a que Louise Brooks!” (Henri Langlois). O Poema Falado deste mês visa homenagear a mais bela, magnífica e fascinante atriz que o cinema já revelou ao mundo em todos os tempos. Refiro-me a LOUISE BROOKS, estrela maior do cinema mudo e uma personalidade a quem muito admiro. Para lhe render tributos mil, o não menos magnífico texto do Vinícius de Moraes, Poema dos olhos da Amada, traduzido e interpretado pela igualmente fascinante atriz francesa Jeanne Moreau. 
 


Ô bien-aimée, quels yeux tes yeux
Embarcadères la nuit, bruissant de mille adieux
Des digues silencieuses
Qui guettent les lumières
Loin... si loin dans le noir
Ô bien-aimée, quels yeux... tes yeux
Tous ces mystères dans tes yeux
Tous ces navires, tous ces voiliers
Tous ces naufrages dans tes yeux
Ô ma bien-aimée aux yeux païens
Un jour, si Dieu voulait
Un jour... dans tes yeux
Je verrais de la poésie, le regard implorant
Ô ma bien-aimée, quels yeux... tes yeux

(VINÍCIUS DE MORAES - JEANNE MOREAU/DOMINIQUE DREYFUS)
 
Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

(VINÍCIUS DE MORAES/PAULO SOLEDAE)



Tomei a liberdade de publicar nesse espaço o texto abaixo, de autoria do economista Carlos Eduardo A. Martins, sobre a fenomenal Louise Brooks(por Sílvio Benevides).
Diz o texto aqui reproduzido de forma resumida:

Seria fácil mitificar “Brooksie”. Não é qualquer atriz que, naqueles tempos, tinha coragem de mandar o establishment dos grandes estúdios de Hollywwod às favas. Não é qualquer mulher que se tornou um ícone visual dos anos 20, a “melindrosa” par excellence. Ou que serviu de inspiração para não menos do que duas personagens de quadrinhos, separadas por quase quatro décadas – Dixie Dugan, de John H. Striebel (por sua vez derivada de um folhetim baseado em Brooks, Show Girl, de J. P. McEvoy ), e Valentina, de Guido Crepax -, além de músicas e vídeos. E, contrariando o estereótipo hollywoodiano, sem ter sequer completado o segundo grau era uma ávida leitora cuja dieta literária incluía Schopenhauer e Nietzsche, Goethe e Proust, e mais tarde se revelaria uma ótima articulista. Mas qualquer mitificação significaria reduzir a mero clichê uma personalidade riquíssima, complexa e contraditória.

Mary Louise Brooks nasceu em Cherryvale, Kansas, EUA em 14 de novembro de 1906. De sua mãe Myra e de sua vizinha Marcella “Tot” Strickler, ambas talentosas pianistas, Louise herdou o amor pela música. E logo desenvolveu uma nova paixão: a dança. Sua estréia como dançarina se deu aos quatro anos, numa produção beneficente da igreja local. Aos dez, já se apresentava em vários espetáculos em Cherryvale e nas cidades vizinhas, e foi nessa época que, por iniciativa de Myra, adotou o corte “pajem” que se tornaria uma de suas marcas distintivas.

Ainda adolescente, Louise entrou como estudante para a então jovem companhia de dança Denishawn, de Ted Shawn, Ruth St. Denis, Charles Weidman e Martha Graham, pioneiros da dança moderna nos Estados Unidos, e com eles deixou Wichita, para onde sua família tinha se mudado, rumo a New York.

Ser uma “denishawner” significava entrega total. Aos contínuos exercícios e ensaios numa ampla variedade de técnicas e estilos, às exaustivas turnês anuais por dezenas de cidades, e a uma estética que enfatizava graça e expressividade, atributos que para Louise eram dons naturais. Nesses aspectos, a participação de Louise foi brilhante. Em apenas seis meses, passou de estudante a contratada. E no segundo ano já era co-protagonista ou solista de vários números do crescente repertório, cujas coreografias igualmente se tornavam mais e mais elaboradas.

Juntamente com o talento, Louise logo demonstrou ter uma personalidade forte, impetuosa, refratária à autoridade e muitas vezes intratável, o que a levaria a um confronto com Ruth St. Denis. Pois Denishawn requeria mais: de um lado, a estrita obediência a um rígido código moral, ao qual Louise, de há muito sexualmente ativa, não aceitava se submeter; de outro, uma veneração quase servil a St. Denis, o que a personalidade altiva de Louise igualmente rejeitava. Foi St. Denis que a despediu - publicamente, diante de todo o grupo –, antes de Louise completar seu segundo ano com a companhia. Não por falta de empenho ou talento; por não ter a “atitude” correta.

Injustiçada (ou pelo menos assim se sentindo), rejeitada, humilhada e desempregada, só restaria a Louise voltar para Wichita - não fosse por Barbara Bennett (irmã das futuras atrizes Constance e Joan), de quem se tornara amiga. No mesmo dia Barbara lhe arranjou uma entrevista com George White, produtor da revista musical Scandals, o qual imediatamente contratou Louise como corista. Scandals era o segundo mais famoso e luxuoso espetáculo do gênero, perdendo apenas para as Follies de Florenz Ziegfeld. No ano seguinte, depois de uma curta, bem sucedida e solitária temporada solo em Londres após deixar Scandals, Louise estava no elenco da versão de 1925 de Follies.

Em plena Era do Jazz, New York fervilhava - nos bares clandestinos e nos clubes sofisticados, nos palcos da Broadway e nos salões dos milionários. O dinheiro corria solto, e, pelo menos entre os endinheirados, os costumes corriam frouxos e a promiscuidade e a inconsqüência imperavam, um Zeitgeist captado à perfeição por Cole Porter em 1927: Let's Misbehave. Não faltavam cavalheiros que assediassem coristas – e as de Ziegfeld eram as mais requisitadas.

Em princípio, a função das coristas era se deixar exibir como troféu e adornar as mesas de seus patronos. Nem sempre o compromisso se estendia até a cama, mas quando tal acontecia, o que não era raro, estava implícito no acordo tácito. Em contrapartida, as acompanhantes eram generosamente presenteadas com peles e jóias ou mesmo confortavelmente instaladas em hotéis luxuosos. Para Louise, tanto fazia. Sexo, desde que o parceiro lhe agradasse, nunca foi problema para ela. Ao longo da vida, teve incontáveis romances – breves, longos ou interminentes –, incluindo um curto e tórrido caso com Charles Chaplin no verão de 1925. Da mesma forma, embora gostasse da “boa vida” (e, confessadamente, tivesse um fraco por roupas), jamais se preocupou em amealhar bens. Era uma sensualista, e a ela interessava a satisfação momentânea, emocional, sexual e material, não a posse.

Não eram só os pretendentes que rondavam os bastidores das revistas. Os olheiros dos estúdios cinematográficos também estavam permanentemente à cata de novas caras – e novos corpos. Ao contrário de suas colegas, Louise não tinha grande interesse pelo cinema, que considerava um meio menor, opinião que era compartilhada pelo pessoal direta ou indiretamente ligado ao teatro. Assim como, com razão, achava o trabalho como corista incomparavelmente pobre em comparação com a dança, em particular o que havia realizado em sua temporada com Denishawn.

Talvez tenha sido essa insatisfação que a levou a, finalmente, aceitar fazer um teste para o cinema, talvez tenha sido um capricho, talvez tenha sido a insistência de seu amante Walter Wanger, um dos principais produtores da Paramount, talvez tenha sido outro traço de sua personalidade, a inconstância, talvez tenha sido a perspectiva de uma fonte adicional de renda (segundo a própria Louise, o dinheiro foi sua única motivação para ingressar na carreira cinematográfica). A indústria cinematográfica estava se transferindo de New York para Hollywood, mas ainda mantinha escritórios e estúdios na Costa Leste. Isso significava que Louise poderia filmar durante o dia, atuar nas Follies durante a noite, e ainda aproveitar as noitadas novaiorquinas.

Seja como for, Louise um dia se viu fazendo o teste para uma figuração em O Mendigo Elegante (The Street of Forgotten Men). Extremamamente crítica com relação a seu próprio desempenho, Louise achou seu teste péssimo. Mas o estúdio teve outra opinião, e a participação de Louise foi mantida na montagem final. Logo em seguida não só a Paramount como também a MGM lhe ofereceram contratos. Louise optou pela primeira, e foi logo escalada para uma ponta em Vênus Americana (The American Venus).

Louise não tinha muito a fazer senão enfeitar o cenário, o que fez além das expectativas. Uma foto promocional em que aparecia quase nua da cintura para cima, com apenas duas estreitas faixas lhe cobrindo parcialmente os seios, numa pose desafiadora, mãos nos quadris, foi fartamente reproduzida pela imprensa. A partir daí, era impossível ignorar a novata. E os críticos, longe de a ignorarem, destacaram sua presença em cena embora o filme não tenha sido muito bem recebido.

Nos três anos seguintes Louise fez mais doze filmes, todos - com uma única exceção - comediolas bobas, no máximo um melodrama. Muitos desses filmes se perderam ou só existem em cinematecas, e portanto não accessíveis ao público de hoje. Louise fora contratada pela beleza, e dela não se esperavam grandes dotes dramáticos. Mas gradativamente, por uma mistura de intuição, observação e talento natural, e apesar de não ter qualquer treinamento formal como atriz, foi dominando a arte de representar. O que não escapou aos críticos, que logo passaram a elogiar-lhe o desempenho, mesmo quando o papel não exigia muito dela.

A exceção veio em 1928 com Mendigos da Vida (Beggars of Life), de William Wellman, sobre um grupo de hoboes, vagabundos que viviam em vagões de carga de um canto para outro, e pela primeira vez Louise teve a oportunidade de realmente mostrar que sabia atuar. O papel de Louise, de uma fugitiva disfarçada de rapaz, implicava que aparecesse desglamorizada, o que enfatizava seu desempeho como atriz. Nesse meio tempo, os fãs também se haviam apaixonado pela jovem de olhar magnético e cabelos à la Príncipe Valente. Louise era uma das campeãs de correspondência da Paramount. Seu rosto aparecia repetidamente nas capas das mais prestigiosas revistas especializadas. De “novidade interessante”, havia passado à categoria de “estrela ascendente”.

Seu casamento com o diretor Eddie Sutherland, marcado por repetidas infidelidades de parte a parte, havia fracassado (também tipicamente, Louise recusou a pensão alimentícia a que teria direito bem como qualquer outra compensação material). A frivolidade e a pobreza intelectual de Hollywood, para onde tinha se mudado, lhe eram insuportáveis, e sempre que podia fugia para seu círculo de amigos novaiorquinos e para os braços de seu mentor e amante recorrente George Marshall.

No ano seguinte, Louise voltaria ao padrão dominante em sua carreira. Em O Drama de uma Noite (The Canary Murder Case), de Malcolm St. Clair, fez o papel de uma corista de teatro de revista, a "canária" do título original. Embora a personagem fosse crucial para a trama, de novo o papel não exigia muito de Louise como atriz. Baseado num popularíssimo romance de mistério escrito por S. S. Van Dyne (pseudônimo de Willard Huntington Wright), Drama era uma grande aposta da Paramount, mas ficou longe de ser o sucesso de bilheteria esperado. Mesmo assim, foi indiretamente um divisor de águas na vida de Louise.

O contrato de Louise com a Paramount estava chegando ao fim, e cabia ao estúdio optar por renová-lo ou não. Louise estava em ascensão, e o estúdio não tinha por que a dispensar. Era praxe, nos casos de renovação, conceder aos contratados um aumento de salário, e era o que Louise esperava quando foi chamada para uma reunião com o chefão da Paramount, B. P. Schulberg. Para sua surpresa, Schulberg declarou sumariamente que ou ela aceitava renovar pelo mesmo salário ou seria dispensada. E, para pasmo de Schulberg, Louise optou pela segunda alternativa.

Não foi apenas uma decisão voluntariosa. Na véspera, George Marshall lhe havia dito que não cedesse à pressão, pois ele sabia que um diretor alemão estava interessado em contratá-la para um filme “muito famoso” – e por um salário maior. Marshall sabia do que estava falando. No momento em que Louise deixou a sala do chefão da Paramount, sem contrato e sem emprego, a secretária de Schulberg lhe entregou um telegrama que havia sido endereçado ao estúdio. Era um convite do diretor Georg Whilhelm Pabst para que ela fizesse um teste para o papel de Lulu em A Caixa de Pandora.

Louise nunca tinha ouvido falar de Pabst, muito menos das peças de Frank Wedekind nas quais se baseava o roteiro do filme. E nem de longe supunha que a escolha da atriz que faria Lulu havia se tornado na Alemanha o objeto de uma busca frenética só comparável à que, dez anos depois, cercaria a escolha da intérprete de Scarlett O'Hara em E o Vento Levou.

Se a escolha da inglesa Vivien Leigh como Scarlett foi polêmica, muito mais celeuma causou Pabst ao optar por uma pouco conhecida atriz estadunidense para o papel de Lulu. Pabst havia entrevistado dezenas de atrizes, incluindo a Marlene Dietrich pré-Anjo Azul, mas nenhuma correspondia à visão que tinha de sua Lulu. Até que, já desesperado, viu umas poucas cenas de Louise em A Girl in Every Port, e teve seu estalo.

Pabst, Lulu e Louise foram feitos um para o outro. Pabst não sabia que Louise, assim como a personagem, era dançarina. O inverso se dava, já que Louise não havia lido o roteiro. Louise tampouco sabia que Pabst dava a seus filmes um tratamento coreográfico, da direção de cena à montagem. Ou que era um expoente do estilo que seria rotulado de “nova objetividade” (que conservava algumas inovações formais de expressionismo, mas lhe rejeitava o hiper-artificialismo e a hiper-estilização, buscando em vez disso uma abordagem mais “natural” e “realista”), do qual A Caixa de Pandora se tornaria marco e síntese.

Vista hoje, a atuação de Louise é surpreendentemente moderna. Numa época em que o cinema ainda estava se livrando das caras e bocas caricaturais à la Rodolfo Valentino, Louise impressiona pelo comedimento. Com um pequeno gesto, um sorriso, um franzir de rosto, e principalmente um olhar, é capaz de transmitir toda a gama de emoções e a ambigüidade de Lulu sem jamais cair no exagero. Muito se deve a Pabst, que era um soberbo diretor (e manipulador) de atores, e mais ainda de atrizes. Notando logo que Louise era uma atriz intuititva, Pabst, em vez de a soterrar sob detalhadas instruções de como agir diante da câmera, concentrou-se em lhe passar concisas instruções sobre as emoções envolvidas na cena, e deixar que Louise as desenvolvesse.

As filmagens de Pandora foram concluídas exatamente na data prevista. No dia seguinte, Louise estava de partida para New York. Tinha gostado de trabalhar com Pabst, a quem viera a devotar grande admiração, mas para ela Pandora era apenas mais um trabalho concluído, e como tal página virada (por Carlos Eduardo A. Martins).

Imagem: George Grantham Bain Collection 

domingo, 14 de agosto de 2011

POEMA FALADO: Visita à casa paterna

É com ENORME prazer que publico a homenagem de meu grande amigo Silvio ao seu amado PAI.

Aproveito para desejar Feliz dia dos Pais ao Senhor Benevides (Pai de Silvio), Senhor Reis (meu pai) e a todos os pais.

“Às vezes sinto saudade do tempo de uma aurora querida, aurora esta nem sempre vista, mas, sem dúvida, deveras sentida. Fico a pensar como teria sido o que jamais foi e, por isso mesmo, nunca será. Será? Mas os devaneios, vindos como um rompante, rompem-se de repente e me lembro, então, do tempo passado e presente. Nesse instante, recordo o meu pai e percebo que o momento é agora. Momento propício para dizer o quanto o amo e quero bem.” por Silvio Benevides.

Por essa razão, o Poema Falado desse mês, traz o belíssimo soneto Visita à casa paterna, do Luís Guimarães Júnior, que diz:


Visita à casa paterna

“Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.

Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos, - olhou-me, grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo. /

Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
minhas irmãs e minha mãe... O pranto /

Jorrou-me em ondas... Resistir quem há de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade”.


Com esse vídeo-poema, mais uma vez com a voz do magnífico Paulo Autran, expresso o meu amor ao meu querido pai. Que Deus nos conserve por muito mais tempo ainda (por Silvio Benevides).


Anunciação

Toca essa música de seda , frouxa e trêmula,
Que apenas embala a noite e balança as estrelas noite mar ,
Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
Com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento.
E o vento bate nas cordas e estremecem as velas épocas,
E a água derrete um brilho fino , que em si mesmo logo se perde.
Toca essa música de seda , entre areias e nuvens e espumas
Os remos pararão no meio da onda , entre os peixes suspensos
E as cordas partidas andarão pelos ares dançando à toa.
Cessará essa música de sombra que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida , talvez não haja nem o pó que fomos.
E a memória de todo desmanchará suas dunas desertas .
E em navios novos homens eternos navegarão.

(Cecília Meireles. Antologia Poética)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Uma questão de ponto de vista

Assim como toda moeda tem dois lados, toda história tem, no mínimo, dois pontos de vista. No caso de uma competição esportiva, como uma partida de futebol, por exemplo, esses dois pontos de vista são o do vencedor e do vencido. Não há apenas um lado da história. Há sempre dois, no mínimo. Mas o que se viu após a partida entre Brasil e Paraguai pelas quartas-de-final da Copa América foi algo acintoso. Refiro-me não ao resultado, mas, sim, a alguns comentários dos chamados analistas (analistas?!) esportivos brasileiros.

Em relação ao resultado, pouca coisa a dizer a não ser surpreendente. Quatro pênaltis batidos e nenhum convertido em gol. Tenho a impressão que tal feito é algo inédito na história do futebol internacional. Sem dúvida, um 17 de julho histórico. Algo para os palpiteiros de gala lembrar no futuro. Mas meu objetivo aqui não é discorrer sobre o resultado da partida. Como já disse, quero falar a respeito dos comentários que acompanhei pela televisão e pela internet.

Certos comentários, que pretendiam explicar o inexplicável, me chamaram bastante atenção. Primeiro porque se esqueciam de considerar que no esporte uns ganham e outros perdem. Não é possível ganhar todas nem, tampouco, perder todas. O esporte é assim. Aliás, a vida é assim. Se há uma premissa que devemos ter sempre em mente é esta. Segundo, frisou-se bastante o estado do gramado do Estádio de La Plata. Muitos buracos e areia pintada de verde para disfarçá-los. Isso, de acordo com tais analistas esportivos, teria prejudicado o Elano, o Thiago Silva, o André Santos e o Fred na hora de bater os pênaltis. Pode até ser que o gramado tenha prejudicado o Brasil. Porém, não devemos esquecer que as péssimas condições do gramado valiam tanto para a seleção brasileira quanto para a seleção paraguaia. Ainda assim, o Paraguai, mesmo tendo perdido o primeiro pênalti, converteu outros dois e, como se não bastasse, o goleiro Justo Villar, magnífica muralha, defendeu o chute do Thiago Silva. Se há explicações para esta histórica derrota brasileira, elaboremos outras, pois estas são muito inconsistentes, para não dizer estapafúrdias.

Igualmente estapafúrdio é diminuir a vitória paraguaia, declarando que a seleção chegou às semi-finais sem ganhar uma partida sequer neste campeonato. Ora, o Paraguai ganhou quando interessava ganhar, não importa como. Ademais, quantas vitórias o Brasil acumulou nesta Copa América? Quantas vezes o Brasil venceu o Paraguai na nesta mesma Copa América? Aliás, quantas vitórias a seleção brasileira acumulou sob o comando do técnico Mano Menezes? Será mesmo que estamos com essa bola toda para diminuir o feito dos nossos adversários? Vale refletir, afinal, vitória e derrota é só uma questão de ponto de vista (por Sílvio Benevides em  http://salvadornasoladope.blogspot.com/).
 
 

sábado, 16 de julho de 2011

Poema Falado: ISMÁLIA


A lua, satélite natural da terra, que, segundo uns hippies que conheci em Trancoso, sul da Bahia, é natural porque, certamente, só deve comer comida natural, exerce um enorme fascínio sobre homens e mulheres, sejam estes enamorados poetas, poetas enamorados ou loucos inebriados de beleza e dor. Apesar de a ciência negar, a lua é sim uma estrela, a principal estrela que habita os sonhos humanos e protagoniza inúmeros poemas, histórias de amor, crenças e lendas das mais belas, como A tapera da Lua, publicada no Salvador na sola do pé na semana passada. Para dar continuidade ao tema LUA, este espaço publica nesta semana o Poema Falado ISMÁLIA, do Alphonsus de Guimaraens, um das mais belas e conhecidas poesias brasileiras, que aqui é magnificamente interpretada pelo inesquecível e eterno Paulo Autran. Diz o poeta: “Quando Ismália enlouqueceu,/ Pôs-se na torre a sonhar.../ Viu uma lua no céu,/ Viu outra lua no mar. // No sonho em que se perdeu,/ Banhou-se toda em luar.../ Queria subir ao céu,/ Queria descer ao mar... // E, no desvario seu,/ Na torre pôs-se a cantar.../ Estava perto do céu,/ Estava longe do mar... // E como um anjo pendeu/ As asas para voar.../ Queria a lua do céu,/ Queria a lua do mar... // As asas que Deus lhe deu/ Ruflaram de par em par.../ Sua alma subiu ao céu,/ Seu corpo desceu ao mar...” Como já disse alguém de quem não recordo, de poeta e de Ismália todos nós temos um pouco. Boa áudio-leitura (por Sílvio Benevides).
 
 
 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Soberania - Manoel de Barros

Ganhei um dia no meu trabalho um livro caixa: uma caixa amarrada por uma fita amarela. Dentro, as paginas soltas eram um desafio feito à memória do autor. Fiz a leitura no mesmo dia que ganhei e o guardei...guardei...guardei e foi atendendo ao pedido de uma amiga, na busca de alguns escritos do autor que reencontrei o livro tão bem guardado e também reencontrei as minhas memórias da leitura do livro. Memórias essas não da minha infância, mas da minha leitura dos textos "Memórias Inventadas" de Manoel Barros.


 Memórias Inventadas - A Terceira Infância - Manoel de Barros
A série "Memórias Inventadas", concluída com a publicação desta "Terceira Infância", resultou de um desafio proposto ao poeta escrever sua autobiografia. Seus pequenos contos transportam o leitor para o tempo em que as crianças construíam seus próprios brinquedos. Texto e imagem se completam, compondo um cenário único.
Soberania
Manoel de Barros

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das ideias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Texto extraído do livro (caixa) "Memórias Inventadas - A Terceira Infância",
Editora Planeta - São Paulo, 2008 com iluminuras de Martha Barros.

sábado, 11 de junho de 2011

Variação Linguística: Por uma vida melhor.

Muita gente comentou sobre a polêmica em torno do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, adotado pelo MEC. Minha caixa de e-mail lotou. Foram muitas pessoas se colocando contra o livro sem saber do que se tratava.
Abrir revistas, jornais, entrei nas minhas redes sociais e o assunto era o mesmo.
Não queria ser mais uma e pegar o “bonde andando”.  Fui em busca do livro, de quem afinal fez a leitura e que sabia o que estava acontecendo.
Foi pensando nesses e-mails e nas notícias publicadas de uma forma descontextualiza que resolvi publicar  aqui um desabafo de alguém que tem conhecimento de causa e que se coloca bem articulada e conhecedora do assunto.
Com isso darei meu ponto final a essa polêmica.
Liane Castro de Araujo, doutoranda em educação (Faced/Ufba), supervisora de Escrita e Leitura da Via Magia permitiu aqui a publicação do seu desabafo:
Gente,
Li muitas coisas, ouvi muitas coisas, muitos argumentos – bons argumentos – de um lado e de outro da questão. E muita besteira também. Resolvi dar minha opinião.
Antes de tudo é preciso ler o tal capítulo do livro que gerou tanta polêmica a respeito do ensino da língua. Muita gente comentou Brasil afora, na mídia, na mesa de bares, nas escolas, nas redes sociais, sem ao menos tê-lo lido, criticando só a partir de frases tiradas de seu contexto e dos famosos achismos tão caros aos que não são da área. Por que será que temos esse gosto pelas dicotomias, polaridades, falsas polêmicas? Por que tudo vira um ringue entre os que acusam e os que defendem ardorosamente uma causa? Não podemos, como educadores que pensam a linguagem, cair na armadilha dessa dicotomia tosca que se criou.
E o engraçado é que o livro propõe justamente o ensino da gramática, da norma culta da língua...
Talvez a autora tenha, de fato, sido infeliz – até ingênua, talvez – no modo de colocar certas coisas, talvez até superestimando a capacidade dos seus leitores em compreender a questão em toda sua complexidade. Talvez ela tenha passado rápido demais pelo tema, não distinguindo a fundo a norma escrita e a falada, a norma ideal da gramática (que ninguém fala, nem os letrados) e a norma real, o padrão e o culto, a gramática e a língua. Talvez ela tenha sido apressada no trecho que indica que “claro que pode falar assim”, considerando a complexidade da questão e a delicadeza do tema para quem não é da área e não acompanha as discussões sobre a variação linguística. Acho que ela não pensou que pudesse ser tão chocante para uns, algo tão já discutido no meio linguístico. Talvez. Talvez ela pudesse ter sido mais cuidadosa na transposição do que é saber da linguística e o modo de abordar, no ensino, a realidade da existência de variedades faladas (para ensinar a norma, diga-se de passagem). Mas daí a essa reação apaixonada contra o que ela trata no capítulo, me parece mais equivocada ainda. Caímos de novo naquela de que a gramática, a norma culta, etc, etc, são tesouros intocáveis, quase divinos? Precisava tanta inflamação?
Acho que é preciso sim reconhecer as variedades, sua legitimidade como língua portuguesa, para partir daí para o ensino da linguagem valorizada socialmente. Só assim milhares de alunos serão reconhecidos como falantes do português, embora passem a tomar consciência de que sua variedade não tem muito prestígio social. Vão aprender sabendo o porquê de aprender, não achando que é porque não falam português. Acho justíssimo sim, esse tema ser tema de estudo da área de linguagem na escola, se a escola é para todos.
Marcar de forma redundante o plural numa frase, como faz a língua portuguesa, não é necessariamente a única forma de marcar plural e isso pode até mudar, como já mudou em várias línguas, argumento que, evidentemente, não invalida a norma atual da língua culta. Talvez a autora tenha se apressado no modo de fazer suas colocações, mas sua perspectiva é a da ciência linguística. Não concordo que haja uma separação estanque entre a ciência linguística e a prática educativa. Fosse assim, não teria havido mudanças essenciais no ensino da língua a partir dos estudos da língua nas últimas décadas. Há a tal “transposição didática”, evidentemente, não se trata de uma aplicação direta. É evidente que os conhecimentos linguísticos, descritivos da língua, não são para serem, todos, repassados para os alunos tal e qual. Saber como funciona e ensinar, realmente, não são a mesma coisa. Mas também não são objetos estanques, impermeáveis. Parece-me essencial a contribuição da sociolinguística desde os anos 70 e da linguística contemporânea para o ensino da língua hoje e, mais ainda, junto com isso, para a mudança de atitude quanto ao tratamento das questões de linguagem na escola. Em especial o tratamento dado em relação às variedades faladas pelos alunos, o modo como os acolhemos na escola. A língua culta não é um tijolo maciço estanque, inquebrável, imutável e intocável. E é assim que ela tem aparecido na mídia!
De novo vemos os burgueses letrados tremerem de medo do falar de grande parte do povo brasileiro, por esse falar estar explicitado em um livro, outro objeto intocável, símbolo do que é mais culto! Nossa, que heresia, heim?!!!
O livro em questão, no entanto, não prega falar “errado” nem ensinar aos letrados as variedades não cultas da língua para que possam falá-la também. Que despautério desses que foram à TV afirmá-lo! E como se pode constatar ao lê-lo, curiosamente, o livro pretende, justamente, ensinar a norma culta. Colocar as coisas nos seus lugares é muito saudável, inclusive destronando a norma culta de um trono imaculado, com a faixa “língua portuguesa” atravessada no peito, acho que é isso que a linguística faz, e que o livro acusado tentava fazer.
O que os linguístas discutem hoje, de sua perspectiva descritiva da língua falada, não pode ser ignorado pela escola. Especialmente a escola pública, que recebe alunos que falam variedades bem distantes da norma culta. Isso já sabemos. Os modos de fazê-lo podem, esses, ser discutidos, sim, concordo. Não ensinar a norma culta é reafirmar o fosso, concordo. A própria autora do livro, sem dúvida, sabe disso. Ninguém está pregando “cada um no seu quadrado”!!! Mas ignorar o fenômeno da variação é uma injustiça ainda maior. Reconhecer a variedade e conceber a norma como uma variedade de prestígio – e que o é por razões diversas, inclusive históricas, sociais, políticas – é um primeiro passo para uma atitude de não preconceito, que me parece, é papel da educação. Aliás, é bom lembrar, a expressão “preconceito linguístico” não foi um delírio cunhado por essa autora em especial, como muitos estão dizendo, mas faz parte do campo conceitual da ciência linguística. Não dá para separar de todo linguagem, educação e poder. Não é possível que, com tudo que sabemos hoje sobre a história da constituição de uma língua padrão, sobre fenômenos e mudanças linguísticas, continuemos tratando a norma culta como “a língua portuguesa” e as demais variedades todas como distorções dela. E é esse trono que está sendo propalado pela mídia.
Porque ninguém se incomoda que hoje se fale a palavra “balde” como /baudji/ e não como /balde/, como falava meu avô e uns poucos de cabeça branca que ainda restam vivos? (tentar falar assim, para nós, hoje, faz uma dobra na língua que parece até inglês!!!). Porque não incomoda os defensores da língua culta que uma moça bem letrada diga a seu marido, filho ou a seu funcionário: “Benhê, traz um copo d’água, por favor. Você traz?”, "João, leva esse livro pra estante, tá?", “Filho, vem cá! Você quer jogar?”. Por que para os letrados a tolerância é maior? O letramento permite que todos se policiem para usar a norma culta nas situações sociais em que esta é exigida. Para falar “se eu vir...”, “assisti ao filme...” muitos de nós temos que nos policiar (ao menos enquanto a língua não mude nesses aspectos), e relaxamos entre amigos, não? Por que toleramos as diferenças entre norma ideal e real quando quem abre a boca é de uma camada mais culta da sociedade? E por que incomoda tanto os que dizem “Eu toco frauta muito bem”? O preconceito linguístico é sim, antes de tudo, preconceito social. Acredito nisso sim! Isso nós precisamos, como educadores, ter em mente e combater a cada dia. E é a linguística que pode nos dar essa dimensão (ainda que, por vezes alguns também relativizem demais a questão, do ponto de vista da educação). Não podemos ignorar esse fato, ao preço de mascararmos a questão do poder que está entranhada nas questões de linguagem. Até porque o grande Camões não só falou, como escreveu frauta em seu texto mais famoso. E por quê? Por que a língua muda! E porque só valem as mudanças estabelecidas pelas camadas sociais mais prestigiadas? Precisa responder? Acho que não, né? Aliás, não fosse esse tipo de fenômeno linguístico nem haveria língua portuguesa! O certo é que esses fenômenos existem e são eles os responsáveis por formar as línguas, além de modificá-las (não necessariamente deturpá-las, como querem alguns).
Bom, isso tudo evidentemente não quer dizer que não seja para ensinar a norma culta escrita, e até mesmo a falada. Por questões sociais, sim, e em especial pelo direito ao acesso à língua em que se registram os textos escritos na nossa sociedade. Todo o livro da autora massacrada é isso, para ensinar a norma culta da língua!
Ainda que essa repercussão do livro possa também gerar uma discussão fecunda, estou com Faraco, Possenti, Magda Soares, até mesmo Marcos Bagno, dentre outros, que reconhecem nessa querela toda uma falsa polêmica, uma polaridade absurda, estanque e que, feita dessa forma tão inflamada, penso eu, é burra. A complexidade da questão não cabe em cinco minutos de noticiário no jornal e nos melindres de defensores ardorosos da redoma de vidro inquebrável da norma culta, que desconhecem a própria dinâmica das línguas
Toda polaridade absoluta é burra.
Estou também com Bakhtin, para quem há na linguagem, como na vida social, forças centrípetas que tendem para a conservação, a homogeneização e forças centrífugas que impelem para o descentramento, a transformação, a diversidade. Essa tensão entre elas permeia o movimento incessante da linguagem. É a dinâmica da linguagem, da língua, da vida!!!
É como penso.
Liane Castro de Araujo (Lica)