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sábado, 4 de abril de 2009

Colaboração de Bel.




Livros e flores
(Machado de Assis)

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

Publicado na obra Falenas de 1870

quinta-feira, 26 de março de 2009

Colaboração de Bel

(Imagem enviada por Vivi)



MOTIVO


Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.



Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.



Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.



Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.



REFERÊNCIA: Cecília Meirelles da obra Viagem de 1939

quinta-feira, 19 de março de 2009

Colaboração de Bel.


POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.



E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?


Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



REFERÊNCIA: Fernando Pessoa como Álvaro de Campo publicações dispersas a partir de 1914

quinta-feira, 12 de março de 2009

Colaboração de Bel.


Momento
(abril de 1937)

O vento corta os seres pelo meio.
Só um desejo de nitidez ampara o mundo...
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.

Ninguém chega a ser um nessa cidade,
As pombas se agarram nos arranha-céus, faz chuva.
Faz frio. E faz angústia... É este vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana
Exigindo céu, paz e alguma primavera.

REFERÊNCIA: MARIO DE ANDRADE em A Costela do Grão Cão Poesias Completas 1987 pág.319.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Colaboração de Bel.


ENCONTRO

Nem tu nem eu estamos
com disposição
de nos encontrar.
Tu...pelo que já sabes.
Eu a quis tanto!

Segue esta veredazinha.
Nas mãos,
tenho os buracos
de dois cravos.
Não vês como me estou
dessangrando?
Não olhes nunca para trás,
vai devagar
e reza como eu
para São Caetano,
que nem tu nem eu estamos
com disposição
de nos encontrar.

REFERÊNCIA: FREDERICO GARCIA LORCA EM OBRA POETICA COMPLETA TRADUÇÃO DE WILLIAM AGEL DE MELO 1989

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Colaboração de Bel.


MEMÓRIA

Quando foi aquele tempo
em que eu me olhava, sonhando,
nas águas desta bacia
e via o rosto da moça
que, do fundo, me sorria?


Onde foi parar o sonho?
Pra onde foi a magia?
Pra onde o rosto da moça
que, do fundo, me sorria?


Em que águas refletida
sorri agora, tardia,
a face que me sorria
lá no fundo da bacia?

REFERÊNCIA: Maria Thereza Noronha, em A Face na Água (1990)


Vai ser fácil

Vai ser fácil te esquecer.

Basta que não abra os olhos
pois em tudo vejo tua presença.
Basta que não respire
para fugir do teu perfume irresistível.
Basta que nossos corpos não se toquem,
pois esse contato me leva a seguir-te
como a lua gira fielmente ao redor da terra.
Basta que não durma,
Para evitar que, absoluta e segura,
compareças nos meus sonhos,
como quem passeia em seus conhecidos domínios.

Viu como vai ser fácil?...


Referência: Solange Rech em DE AMOR TAMBÉM SE VIVE de 1999


A PROCURA

Andei pelos caminhos da Vida.
Caminhei pelas ruas do Destino –
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha se mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a morada da Fortaleza.
Ela me fez entrar: deu-me veste nova,
perfumou-me os cabelos,
fez-me beber de seu vinho.
Acertei o meu caminho.

REFERÊNCIA: Cora Coralina em Meu livro de Cordel de 2001



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Colaboração de Bel.


TRAJETO

era meio sem querer que acontecia isso
não tinha um compromisso uma coisa definida
ia rolando do jeito que vai a vida
você sabe como.

a gente vai se virando meio cão sem dono
aí pelas avenidas
vai mudando de pensão
e a coisa toda não é muito simples mais que isso
você sabe que não.


REFERÊNCIA: Bruna Lombardi em O PERIGO DO DRAGÃO DE 1984


SONATAS II

Partir para bem longe,
onde o amor seja um hino de paz.
E quando o passo for ausência
nas cadeias do passado
Possa o pensamento esquecer
que um sonho foi amado.

Partir para tão longe
esfarrapando em brancas mãos
a miragem que foi tempo
em dádiva de esperança.
E seguir semeando pelo chão
o pranto em sorriso de criança.

Partir para mais longe,
sem ódio, temor, nem amargura,
tateando nos abismos do infinito
o mistério de tanto querer.
E seguir apagando na ternura
as pegadas de um amor, não ser.


Referência: Aparecida Levy em Baladas de 1982

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Colaboração de Coccienelle

Ao enviar para Papi o vídeo-poema Blanco cantado pela Marisa Monte, não podia imaginar que ele daria origem a outro belo poema. Explico-me. Ao comentar o vídeo-poema TRANSBLANCO que fiz especialmente para o blog da Papi, a Bel, com sua enorme sensibilidade, postou o seguinte comentário:
"Um enigma! Vejo minhas mãos, meus pés e pernas mas não consigo enxergar meus próprios olhos, minha face, minha expressão de dor e alegria...não meus olhos não enxergam a si mesmos sem a ajuda do outro... "Me vejo no que vejo" refúgio seguro é a casa aberta! Seja bem vinda!! Rsrsrs"
Diante de tão belas palavras, o que fazer? Como sou uma joaninha atrevidinha, transformei o comentário da Bel em um poema falado.


Bienvenue
(por BEL)

Vejo minhas mãos,
Meus pés e pernas
Mas não consigo enxergar meus próprios olhos,
Minha face,
Minha expressão de dor e alegria...
Não! Meus olhos não enxergam a si mesmos sem a ajuda do outro...
“Me vejo no que vejo”
Refúgio seguro é a casa aberta!
Bienvenue!!

Produzi esse clipe especialmente para a BEL e para o Blog da Papi.
Beijos de Coccinelle para ambas.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Colaboração de Bel.


TOMA O TEU CORAÇÃO

Taí, toma o teu coração.
Sem ele não podes viver.
Eu quero só um pedacinho;
distribui a maior parte
com quem quiseres.
Agora me dá o meu.
Fica com um pedacinho.
A outra parte
vou repartir
com todo mundo.

REFERÊNCIA: Francis Mary Alves de Lima em Filha de Tupã da coletânea Língua Solta Poetas Brasileiras dos Anos 90 de 1994


Sempre falta algo...

Sempre falta algo
um gesto
um silêncio
uma curva do pescoço

Sempre falta aquela cor no olho
a ironia espalhada
ares de implacável fumaça

Pode-se morrer nessa
buscando a doçura de manhã
Esse papo de only you

REFERÊNCIA: Pauline Alphen em Boca a Boca da coletânea Língua Solta Poetas Brasileiras dos Anos 90 de 1994

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Colaboração de Bel.




VOCÊ ENGOLE BORBOLETAS
EU TENHO O SOL NA BARRIGA

Você engole borboletas
eu tenho o sol na barriga
Você sempre anda de óculos
eu leio coisas antigas

Você vara a noite
eu desenho cataventos
Você gosta de ficção
eu tenho outros inventos

Você anda desligado
e eu busco perspectivas
Você me conta seus sonhos
e me ri e me cativa

Eu tenho medo da noite
Você ama a solidão
o meu amor se reflete
nas pupilas dos olhos de um cão

Você teoriza a matéria
e eu adoro hidrantes
Você quer a liberdade
e eu só vivo o instante

A gente faz uma viagem
e vê estrelas cadentes
e eu sonho um mar onde nado
e me afundo contra a corrente

Você geme e se revolta
e eu penso no seu beijo
e enquanto você conversa
me dói no corpo o desejo

me arde o corpo o desejo
eu me espreguiço me espicho
e me chego e te provoco
meio anjo meio bicho

Você me conta um segredo
eu te mostro um encanto
enquanto você toca flauta
desafinada eu canto

Você absorve a paisagem
eu procuro a maravilha
Você deixa alguns vestígios
e eu vou seguindo a trilha

Você fala em liberdade
e eu me prendo no seu traço
você é abstrato divaga
eu te olho e te embaraço

Ando na rua devagar
Você corre na avenida
Você tem melancolia
eu tenho medo da vida

Você fala ao telefone
cercado dos seus amigos
eu passo os dias muito só
e só entendo depois que digo

De repente vem o encontro
sem que a gente entenda o nexo
eu te vejo e me compreendo
e me vejo em teu reflexo

Eu te transmito fluidos
de uma forte ligação
e recebo uma corrente
quando pego na tua mão

Você tem um magnetismo
eu sou dotada à magia
nossas auras se atraem
por uma questão de energia

Você cospe margaridas
tem o mundo nas entranhas
eu fico horas olhando
o orvalho na teia de aranha

E a gente se precisa
como a um aditivo
numa coisa estranha a nós
sem razão e sem motivo

São coisas transcendentais
é inútil que eu lhe diga
Você engole borboletas
eu tenho o sol na barriga.

REFERÊNCIA: Bruna Lombardi em NO RITMO DESSA FESTA



Do Viver

Urge viver. Minutos audaciosos
Armam cilada aos passos repetidos.
Qualquer coisa acontece nestes idos
De tempo estranho, e nós, seres porosos,

De argila e sangue, tristes e jocosos,
Com lágrimas e risos ressentidos,
Sacudimos os guizos comovidos
Como sinal de luz sobre danosos

Desertos de aquiescência e de rotina.
Urge viver. O tempo nos apela
No fim de cada rua. Em cada esquina

Há um encontro fatal, o gesto incrível
Do pintor produzindo em nossa tela,
Algo de cotidiano e de terrível.


REFERÊNCIA: Paulo Bomfim em LIVRO DE SONETOS DE 2006



EU TE AMO TANTO

Eu te amo tanto que não pode o peito
conter dentro de si amor tão vasto.
E te amo há tanto que do amor me basto,
sem fêmea alguma que arda no meu leito
ou lembrança que ali sirva de pasto
às larvas de um desejo satisfeito
e que, farto de si, seja perfeito,
como perfeito é o vértice onde o engasto.
Eu te amo desde aquele agudo instante
em que tudo se faz irreal e eterno,
pouco importa se o céu ou o duro inferno,
posto que um nunca do outro está distante.
E assim é porque a mim tocou-me a sina
deste amor que me cega e me ilumina.

REFERÊNCIA: Ivan Junqueira em O Outro Lado. Poemas 1998-2006


COM TANTO ESPANTO

Estou aprendendo

A suportar a falta de sono de olhos bem abertos,

A não sucumbir à falta de fome e à falta de afeto,

A não resistir ao que em mim se mantém desperto,

Tanto quanto tenho andado insone


Estou aprendendo

A não fugir da dor que dilacera,

A não temer o tempo que leva até passar,

Pois ela passa!

E quando passa, ainda resto



Estou aprendendo

A esvanecer a imagem de tantas fotos,

A entrar em casa mesmo quando esta me parece um desconhecido deserto,

A fechar todas as minhas portas

Sem medo de me sentir trancada:

É o que quero



Estou aprendendo

A ouvir músicas queridas distorcendo as lembranças,

Substituindo as metáforas,

Sublimando a saudade,

E a falta da outra voz me acompanhando



Estou aprendendo

Que nada disso era sabido,

Mas sobremodo necessário

E bem por isto aprendo

Com tanto espanto




REFERÊNCIA: Marina Porteclis em http://www.marinaporteclis.blogspot.com/

sábado, 24 de janeiro de 2009

Colaboração de Bel dedicada a São Paulo.


São Paulo comemora os 454 anos de sua fundação, em 25/01.


Parabéns a você Bel e todos os paulistanos, baianos, paraibanos, japoneses, italianos, portugueses etc. Ou seja, PARABÉNS a todas essas misturas de naturalidades e nascionalidades que fazem de São Paulo essa cidade de Brasil e de Mundo!! Viva a São Paulo!!!





INSPIRAÇÃO

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!...Traje de losangos...Cinza e ouro...
Luz e bruma...Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!

REFERÊNCIA: Mário de Andrade em DE PAULICEIA DESVAIRADA de


Quando eu morrer

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
O meu coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram ,
As tripas atiram pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Referência: Mario de Andrade em Lira Paulistana de

domingo, 18 de janeiro de 2009

Colaboração de Bel.


XXXII


Era um momento sem cor
pequeno que dava dó.
Corria rapidamente
para esconder-se na noite
possuir um manto de estrelas
e não ser tão triste e só.

De repente, não sei como,
nos encontramos no nada.
Tranqüilo, calmo, tão sério
você parecia distante.
Não sabia, e eu também não
o que traria a alvorada.

Havia tanto a dizer
- nem foi preciso falar.
Quem marcou o nosso encontro?
Era dia de Iemanjá...
Eu quero dizer seu nome
mas acho melhor calar.



XXVII

Eu te amei tão fácil, simplesmente
como se tivesses nascido para mim.
Sem saber, sem perguntar, sem querer nada
e sem imaginar porque estava agindo assim.

O mar silenciou o tumulto
parou o tempo de repente.
Céu e terra se encontraram
ficou tudo diferente.

Não houve prece ou renúncia
injustiça ou covardia.
Um só beijo, um só abraço
e um passado em agonia.

Abriu-se novo horizonte
colorindo nossa estrada.
Construímos nosso mundo
e não queremos mais nada.

REFERÊNCIA: DINAH NASCIMENTO EM MINHA PEQUENA HORA GRANDE DE 1976

AUSÊNCIA

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são docesPorque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vidaE eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminadoQuero só que surjas em mim como a fé nos desesperadosPara que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoadaQue ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra faceTeus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugadaMas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noitePorque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosaPorque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaçoE eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciososMas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partirE todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelasSerão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Referência: Vinícius de Moraes em Nova Antologia Poética de 2003.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Colaboração de Bel.





XIII

É tempo para dizer
Se prefiro o teu amor
Àqueles, aos doces ares
Da minha campina em flor.
Tu que projetas e inventas
Estruturas ascendentes
E sonhas com superfícies
Além deste continente,
Tu que conheces melhor
As coisas do querer bem
(Porque até agora te quis
E antes não quis ninguém)
Tu, bem o sei, me pressentes.
E mais ainda, me vês
Tão perto do querer ser
Deste amor sempre contente.
Ah, descantares, lamentos,
As leves coisas do tempo
Têm seu tempo e seus altares.
É tempo para escolher
O anoitecer nas planuras
E o contemplar luaceiros
E é tempo para calar
A estória dos meus roteiros.
Paisagem, tu me alimentas
De verde, de sol, de amor.
E numa tarde tranqüila,
Nos longes, seja onde for
Lembra-te um pouco de mim:
Que eu morra olhando as alturas.
E que a chuva no meu rosto
Faça crescer tenro caule
De flor. (Ainda que obscura)

REFERÊNCIA: Hilda Hist em Do Amor. São Paulo, Edith Arnhold/Massao Ohno Editor, 1999

TEMA E VARIAÇÕES

Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.
Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.
Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.
Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.
REFERÊNCIA: Manuel Bandeira em Opus 10 de 1952 hoje integrado a obra Estrela da Vida Inteira.


Soneto

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando num vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

REFERÊNCIA: OLAVO BILAC em Poesias Olavo Bilac da Virtual Books www.terra.com.br/virtualbooks

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Por Nossa Colaboradora Bel 2 Poemas


Depois das merecidas férias litorâneas!!
Ela volta ao lar!!
Bem vinda minha Linda Amiga e o espaço é todo seu!!



Digo Sim


Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos de meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperanças entre pulmões
e nuvens
Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.
A vida nós a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
- em meio à violência e a solidão dizendo sim -
pelo espanto da beleza
pela flama de Tereza
pelo meu filho perdido
neste vaso continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
-digo sim


Ferreira Gullar em Na vertigem do dia. 1980




A primeira vez que entendi


A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.
De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.
A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.
De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.


Referência: Affonso Romano de Sant´anna em Vestígios de 2005

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Colaboração de Bel!! Ah! Ainda de férias!!



NINGUÉM

Ninguém se engane se soar a hora,
se todos os relógios, de repente,
gaguejarem nem sei que dor fremente
que nunca veio e não se foi embora.


Ninguém se engane se souber quem chora,
que um grande choro convulsivo e quente
virá das coisas como espada ardente
atravessando a carne ontem, agora.


Ninguém se engane se dos seus papéis,
dos seus livros inertes, um lamento
terrível se levante como um vento
de maldição e de intenções cruéis.


Tudo, a este instante, é como um grande grito
quase a romper as cercas do infinito.


REFERÊNCIA: Alphonsus de Guimaraens Filho em Só a Noite é que Amanhece — Poemas Escolhidos e Versos Esparsos, de 2003.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Bel, a colaboradora em férias!! Mas, continua colaborando!!! Boas férias Belzinha!!


TEMPO DE PERDER

Algo nos falta
E já não sabemos o quê.

Vestimo-nos
Com a nossa melhor camisa,
Calçamos sapatos novos,
Ainda podemos correr
Como se houvéssemos
Vinte anos a menos.

Mas estamos doentes.

Pensamos sem amor,
Sentimos sem amor,
E toda a intrepidez do mar
É apenas o nosso rugir de dentes.

As pernas estão nuas,
Os braços estão nus,
Acabou-se o mistério.

À mesa do jantar,
Não há mais comunhão.
Vamos juntos ao teatro
E talvez não retornemos.

Na penumbra do acaso,
Os massacres acontecem.
O tempo arde, o tempo urge:
Somos os sobreviventes.


REFERÊNCIA: Mariana Ianelli em Fazer Silêncio de 2005

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Bel, Colaboradora em férias e colaborando!!! Boas férias Belzinha!!




A Hora do Cansaço



As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poderde respirar a eternidade.


Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.


Do sonho de eterno fica esse gosto acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.



REFERÊNCIA: Carlos Drummond de Andrade em Corpo de 1984

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Por Nossa Colaboradora Bel





EQUILÍBRIO

Por amar e sofrer e ser feliz
sei que tive da vida o natural
e se ela não me deu tudo o que quis
foi, talvez, porque eu quis sempre o irreal.

Ao lhe pedir amor nunca supus
Que lhe estava pedindo o bem e o mal,
que ora teria aos ombros uma cruz
ora ao céu subiria, imaterial.

Pois o amor tem nuances imprevistas
quem dele vive nunca faz conquistas
que possam ter feição definitiva.

São premissas do amor: o céu, o inferno;
e entre os dois sofro e gozo o amor eterno
e é por amar demais que inda estou viva.

REFERÊNCIA: Maria Braga Horta em Caminho de Estrelas 1996

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Por Nossa Colaboradora Bel 3 Poemas





Se ela quisesse


Se ela tivesse
A coragem de morrer de amor
Se não soubesse
Que a paixão traz sempre muita dor
Se ela me desse
Toda devoção da vida
Num só instante
Sem momento de partida

Pudesse ela me dizer
O que eu preciso ouvir
Que o tempo insiste
Porque existe um tempo que há de vir
Se ela quisesse, se tivesse essa certeza
De repente, que beleza
Ter a vida assim ao seu dispor
Ela veria, saberia que doçura
Que delícia, que loucura
Como é lindo se morrer de amor
REFERÊNCIA: Vinícius de Moraes em Poesia Completa e Prosa “Cancioneiro” editora nova aguilar 1998



CONFISSÃO

Sejamos sinceros,
meu bem,
dispamos o pijamadas mitologias:
a eternidade não conhece o amor.



O amor também não sabe
verdadeiramente
o que é o amor


e, no fundo, nós nunca acreditamos muito
em parto
sem dor.

REFERÊNCIA: Iacyr Anderson Freitas em A soleira e o Século 2002



LXII


Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.


Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.
Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.


REFEFÊCIA: Hilda Hist em Amavisse de 1989

sexta-feira, 7 de novembro de 2008


Por nossa colaboradora Bel 3 lindos poemas:


Poema da Eternidade

Eternidade...
Os que vão morrer te saúdam
Com as mãos crispadas de frio
E os olhos vidrados pela contemplação da noite;
Nós que sentimos a solidão crescer na alma,
Planta vinda das raízes do ser,
Regada pelo pranto que nunca chega aos olhos;
Nós que possuímos a intuição do efêmero,
A seiva das árvores seculares
E a tristeza dos lobos da floresta;
Nós que deixamos nossos corpos
Plantados como marcos
À beira das estradas;
Nós, os transitórios caminheiros,
Que morremos na arena do espaço
Dilacerados pelos búfalos do tempo;
Nós, os escravos da vida e o alimento da morte,
Que entramos no anfiteatro de pedra
Com os pulsos atados pela dúvida,
Com os olhos cobertos pela poeira dos séculos
E a palavra cimentando os lábios partidos
-Nós, os mortos de amanhã,
Te saudamos,
Primeira e última Rainha do Silêncio!

Paulo Bonfim em 50 Anos de Poesia pág. 63 de 2000




PRESENÇA



É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos

...É preciso que a tua ausência trescales

utilmente, no ar, a trevo machucado,

as folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo

...Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janelae

respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida

...Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato

...E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


Mario Quintana em Apontamentos de História Natural de 1976




Amém


Hoje acabou-se-me a palavra,

e nenhuma lágrima vem

Ai, se a vida se me acabara

também.



A profusão do mundo, imensa,

tem tudo, tudo - e nada tem.

Onde repousar a cabeça?

No além?



Fala-se com os homens, com os santos,
Consigo com Deus

...E ninguém entende o que se está contando

e a quem...



Mas terra e sol, luas e estrelas

giram de tal maneira bem

que a alma desanima de queixas.

Amém.


Cecília Meireles em Vaga Música de 1942