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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Poema Falado: Brasil que eu amo


Segundo a historiografia oficial, aquela que interpreta a realidade a partir da perspectiva dos dominantes, o Brasil está a completar em 2010 cinco séculos e uma década de existência. Desde a chegada de Pedro Álvares Cabral, que aqui encontrou um porto seguro para atracar a sua nau Capitânia, até nossos dias, são 510 anos de história marcada por mandonismos e cordialidades brutas e banhada por sangue, suor e lágrimas de amargura. Mas a história de um povo, a história de nosso povo, não se resume aos atos de violência e abusos praticados pelos colonizadores contra os nativos, contra os negros, que para cá vieram como escravos, ou contra todo tipo de desvalidos e oprimidos. Nossa história é, também, a história de paixões, amores, delícias, desejos e prazeres de toda ordem. Prazeres trazidos pela aragem de todos os dias, pelo aconchego de corpos em chamas, pelo cheiro de maresia. E é sobre o prazer de ser e pertencer a esta terra toda chã com grandes arvoredos que o Salvador na sola do pé, por meio de poemas falados, irá tecer nestes breves dias de abril as fibras de um tecido chamado Brasil. Brasil por mim amado, não porque seja minha pátria, pois, como já escreveu o Mário de Andrade, “pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der”. Brasil mui amado porque “é o ritmo do meu braço aventuroso, o gosto dos meus descansos, o balanço das minhas cantigas, amores e danças”. Este é o Brasil que eu amo, este é o Brasil que eu sou, este é o Brasil que eu quero e que me dá muito orgulho. Orgulho de ser, simplesmente. E para dar início às celebrações desse orgulho, o Poema Falado Canção do Exílio, escrito por Gonçalves Dias. Boa Leitura! (por Sílvio Benevides).




sábado, 22 de novembro de 2008

Para Tia Charlotte. Finalmente!!




Ainda Uma Vez Adeus
(Gonçalves Dias)


I

Enfim te vejo! - enfim posso, Curvado a teus pés, dizer-te, Que não cessei de querer-te, Pesar de quanto sofri. Muito penei! Cruas ânsias, Dos teus olhos afastado, Houveram-me acabrunhado A não lembrar-me de ti!


II

Dum mundo a outro impelido, Derramei os meus lamentos Nas surdas asas dos ventos, Do mar na crespa cerviz! Baldão, ludíbrio da sorte Em terra estranha, entre gente, Que alheios males não sente, Nem se condói do infeliz!


III

Louco, aflito, a saciar-me D'agravar minha ferida, Tomou-me tédio da vida, Passos da morte senti; Mas quase no passo extremo, No último arcar da esperança, Tu me vieste à lembrança: Quis viver mais e vivi!


IV

Vivi; pois Deus me guardava Para este lugar e hora! Depois de tanto, senhora, Ver-te e falar-te outra vez; Rever-me em teu rosto amigo, Pensar em quanto hei perdido, E este pranto dolorido Deixar correr a teus pés.


V

Mas que tens? Não me conheces? De mim afastas teu rosto? Pois tanto pôde o desgosto Transformar o rosto meu? Sei a aflição quanto pode, Sei quanto ela desfigura, E eu não vivi na ventura... Olha-me bem, que sou eu!


VI

Nenhuma voz me diriges!... Julgas-te acaso ofendida? Deste-me amor, e a vida Que me darias - bem sei; Mas lembrem-te aqueles feros Corações, que se meteram Entre nós; e se venceram, Mal sabes quanto lutei!


VII

Oh! se lutei!... mas devera Expor-te em pública praça, Como um alvo à populaça, Um alvo aos dictérios seus! Devera, podia acaso Tal sacrifício aceitar-te Para no cabo pagar-te, Meus dias unindo aos teus?


VIII

Devera, sim; mas pensava, Que de mim t'esquecerias, Que, sem mim, alegres dias T'esperavam; e em favor De minhas preces, contava Que o bom Deus me aceitaria O meu quinhão de alegria Pelo teu, quinhão de dor!


IX

Que me enganei, ora o vejo; Nadam-te os olhos em pranto, Arfa-te o peito, e no entanto Nem me podes encarar; Erro foi, mas não foi crime, Não te esqueci, eu to juro: Sacrifiquei meu futuro, Vida e glória por te amar!


X

Tudo, tudo; e na miséria Dum martírio prolongado, Lento, cruel, disfarçado, Que eu nem a ti confiei; "Ela é feliz (me dizia) "Seu descanso é obra minha." Negou-me a sorte mesquinha... Perdoa, que me enganei!


XI

Tantos encantos me tinham, Tanta ilusão me afagava De noite, quando acordava, De dia em sonhos talvez! Tudo isso agora onde pára? Onde a ilusão dos meus sonhos? Tantos projetos risonhos, Tudo esse engano desfez!


XII

Enganei-me!... - Horrendo caos Nessas palavras se encerra, Quando do engano, quem erra. Não pode voltar atrás! Amarga irrisão! reflete: Quando eu gozar-te pudera, Mártir quis ser, cuidei qu'era... E um louco fui, nada mais!


XIII

Louco, julguei adornar-me Com palmas d'alta virtude! Que tinha eu bronco e rude C'o que se chama ideal? O meu eras tu, não outro; Stava em deixar minha vida Correr por ti conduzida, Pura, na ausência do mal.


XIV

Pensar eu que o teu destino Ligado ao meu, outro fora, Pensar que te vejo agora, Por culpa minha, infeliz; Pensar que a tua ventura Deus ab eterno a fizera, No meu caminho a pusera... E eu! eu fui que a não quis!


XV

És doutro agora, e pr'a sempre! Eu a mísero desterro Volto, chorando o meu erro, Quase descrendo dos céus! Dói-te de mim, pois me encontras Em tanta miséria posto, Que a expressão deste desgosto Será um crime ante Deus!


XVI

Dói-te de mim, que t'imploro Perdão, a teus pés curvado; Perdão!... de não ter ousado Viver contente e feliz! Perdão da minha miséria, Da dor que me rala o peito, E se do mal que te hei feito, Também do mal que me fiz!


XVII

Adeus qu'eu parto, senhora; Negou-me o fado inimigo Passar a vida contigo, Ter sepultura entre os meus; Negou-me nesta hora extrema, Por extrema despedida, Ouvir-te a voz comovida Soluçar um breve Adeus!


XVIII

Lerás porém algum dia Meus versos d'alma arrancados, D'amargo pranto banhados, Com sangue escritos; - e então Confio que te comovas, Que a minha dor te apiade Que chores, não de saudade, Nem de amor, - de compaixão.