sexta-feira, 31 de outubro de 2008




Por nossa Colaboradora Bel 2 lindos Poemas:


Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além ...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E,se um dia hei -de ser pó, cinza e nada,
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
REFERÊNCIA: FLORBELA ESPANCA em Charneca em Flor de 1930


Para Coccinelle.

Lascívia

Quero tê-la nos braços delirante,
Nesse calor que à carne dá ao desejo,
Quero-a impetuosa, lúbrica, ofegante,
Insatisfeita ao beijo, ansiando o beijo¦

Que você seja só e toda amante,
Nada mais, nada, sem rubor nem pejo...
Confusa, estranha, pálida, um instante...
É assim que a quero, e penso, e sinto, e vejo¦

E tudo se dará num só momento,
Que durará o nada, o tudo, o nada,
E será a luz, a flor, a força, o vento¦

Fará do agora toda a eternidade,
Fará da eternidade toda o agora,
E de nós dois fará uma só vontade¦

REFERÊNCIA: OSCAR DIAS CORRÊA em Antologia dos Poetas Brasileiros organizado por Mariazinha Congílio Pág. 162


Esse foi dedicado a Coccinelle(É de colaboradora para colaboradora nada mais...)


domingo, 26 de outubro de 2008



Uma Colaboração da "MITOLÓGICA" criatura Coccinelle.


O Jardim do Amor (de Sons da Experiência)
(William Blake - Tradução Coccinelle)

Eu fui ao Jardim do Amor,
E vi o que jamais imaginei:
Uma Capela fora erguida em meio,
Ao verdor onde sempre brinquei.

E os portões dessa capela estavam cerrados,
“Tu não podes” era o escrito sobre a entrada;
Então eu me voltei para o Jardim do Amor
Onde nasciam muitas flores delicadas;

E vi o jardim repleto de sepulturas,
E lápides onde as flores deveriam estar;
E padres em vestes pretas andavam em círculos,
E atavam com espinhos minhas alegrias e desejos.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008


Assim eu vejo a vida
(Cora Coralina)

A vida tem duas faces:Positiva e negativa

O passado foi duro

mas deixou o seu legado

Saber viver é a grande sabedoria

Que eu possa dignificar

Minha condição de mulher,

Aceitar suas limitações

E me fazer pedra de segurança

dos valores que vão desmoronando.

Nasci em tempos rudes

Aceitei contradições

lutas e pedras

como lições de vidae delas me sirvo

Aprendi a viver.





HOJE ME DEI CONTA
(Fernando Pessoa)


Hoje me dei conta de que as pessoas vivem a esperar por algo

E quando surge uma oportunidade

Se dizem confusas e despreparadas,

Sentem que não merecem,

Que o tempo certo ainda não chegou,

E a vida passa e os momentos se acumulam

Como papéis sobre uma mesa.

Estamos nos preparando para qualquer coisa

Mas ainda não aprendemos a viver,

A arriscar por aquilo que queremos,

A sentir aquilo que sonhamos.

E assim adiamos nossos dias

E nossas vidas por tempo indeterminado

Até que a vida se encarregue de decidir por nós mesmos,

E percebemos o quanto perdemos

E o tanto que poderíamos ter evitado.

Como somos tolos em nossos pensamentos limitados,

Em nossas emoções contidas,

Em nossas ações determinadas.

O ser humano se prende em si mesmo

Por medo e desconfiança vive como coisa

Num mundo de coisas

O tempo esperado é o agora,

o hoje tem o nome de "presente" porque é isso que ele é.

Sua consciência lhe direciona,

Seus sentidos lhe alertam,

E suas emoções não mais são desprezadas.

Antes que tudo acabe é preciso fazer iniciar,

É preciso saber reiniciar mesmo com dor e sofrimento,

Antes arriscar do que apenas sonhar,

Ou o pior: ficar esperando...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008




Por nossa Colaboradora Bel 3 lindos Poemas:





OS POEMAS

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mão
se partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

REFERÊNCIA: Mário Quintana em Esconderijos do tempo, 1980




FILHOS DO FOGO

Não foi o cansaço da jornada
Que de novo nessa noite nos venceu,
Mas um sofrimento antigo, igual a sempre,
A realidade com sua mão espadaúda
Juntando a poeira de uns castelos demolidos,
De tudo extraindo o que sobra de nosso, afinal:
O irreversível.


Cultivamos rituais silenciosos,
Temos dentro de nós a alma do mundo.
Fomos feito para a solidão,
A mesma que sente um animal
Ao largar o seu rebanho
E esperar a morte suavemente
Numa longa tarde de chuva em Gibeon.

Damos calor às coisas enquanto é tempo
E mais tempo há enquanto estamos mudos.
Gozamos um amor tranqüilo, sem heroísmo.
Assim acontece certas vezes, por espanto:
De um golpe, o infinito nos apanha.

REFERÊNCIA: Mariana Ianelli em Fazer Silêncio (2005)


As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

REFERÊNCIA: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE em Corpo1984

terça-feira, 21 de outubro de 2008






A lágrima súbita.

(Soares Feitosa)


Nenhuma grande chuva jamais encheu o mar; nenhuma seca do Ceará conseguiu baixar o nível das águas deste mar-oceano; logo, esta lágrima súbita, neste mar salgado, é inútil como volume.
— De que medos tenho coisa?
Transito eu - ela disse - entre o abismo e a lembrança; que agora, neste borrifo de espuma e brisa, os escorridos da minha face me confundem:
— serão de mim, serão do mar? —
— De que medos tenho eu?
Por que agora uma lágrima, nascida num canto de minha face, quando lágrimas só as conheço de alegre?
Seria este azul de mar profundo, fundo, cheio, soturno, a fonte obscura do meu terror?
Se eu chamar a reflexão, aplacadas serão minhas aflições?
Ou, mais prudente clamar pelo sonho, que prefiro imaginar, agora:
(optei pelo sonho, claro que é sonho)
esta vontade de fugir e cavalgar horizonte e brisa, tanger os ventos no corcel dos meus cabelos, navegar os azuis e céus na esquina de minha face e quando gritar por lágrima, venha, senhora lágrima, eu quero eu preciso chorar, e de surpresa, quando olhar de lado, é sonho, claro que é, reencontrar, no vento ligeiro, a fuga dos teus olhos!?

segunda-feira, 20 de outubro de 2008


Mais uma colaboração da misteriosa criatura Coccinelle

Um Sorriso

Quando

com minhas mãos de labareda

te acendo e em rosaem

baixote

te espetalas

quando

com meu aceso archote e cego

penetro a noite de tua flor que exala

urina

e mel

que busco eu com toda essa assassina

fúria de macho?

que busco euem fogo

aqui em baixo?

senão colher com a repentina

mão de delírio

uma outra flor: a do sorriso

que no alto o teu rosto ilumina?


(Ferreira Gullar)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008


Por nossa Colaboradora Bel:




CANTIGA PARA NÃO MORRER

Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve.


Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração.


Se no coração não possa

por acaso me levar,

moça de sonho e de neve,

me leve no seu lembrar.


E se aí também não possa

por tanta coisa que leve

já viva em seu pensamento,

menina branca de neve,

me leve no esquecimento.


REFERÊNCIA: Ferreira Gullar em De Dentro da Noite Veloz ,1975

segunda-feira, 13 de outubro de 2008


Eu, eu mesmo

Eu, eu mesmo...

Eu, cheio de todos os cansaços

Quantos o mundo pode dar. —

Eu...

Afinal tudo, porque tudo é eu,

E até as estrelas, ao que parece,

Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...

Que crianças não sei...

Eu...

Imperfeito? Incógnito? Divino?

Não sei...

Eu...

Tive um passado? Sem dúvida...

Tenho um presente? Sem dúvida...

Terei um futuro? Sem dúvida...

Ainda que pare de aqui a pouco...

Mas eu, eu...

Eu sou eu,

Eu fico eu,

Eu...
(Fernando Pessoa e seu heterônimos: Álvaro de Campos)

Por nossa Colaboradora Bel:

Ai, quem me dera


Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim...
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor



Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais



Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim


Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim...










REFERÊNCIA: Vinícius de Moraes em Cancioneiro Obras Completas de 1998

Hoje temos uma nova colaboração para o blog e que já chega com um outro gênero literário: O Conto.
Apresento a vocês: Coccinelle e seus lindos contos.
Coccinelle, Bienvenue!!!


AS FILHAS DA LUA

Há muito tempo, nas proximidades de uma vasta serrania, no cume das mais elevadas montanhas, existiu uma tribo formada somente por mulheres valentes e destemidas. Filhas da Lua, senhora e mãe da noite, elas se refugiaram em longínquas colinas quando Jurupari ainda caminhava sobre a terra e, fazendo valer as leis do Sol, sobrepujou as mulheres em benefício dos homens.

Houve uma época em que as mulheres mandavam e os homens obedeciam. O Sol, de longe, olhava tudo aquilo e não gostava do que via. Certo dia, ele decidiu interferir. Do sumo da cucura, que escorreu por entre as pernas de uma cunhã de nome Ceuci, fez nascer Jurupari, mandado à terra para reformar os costumes.

Invertendo a disposição das coisas, o enviado do Sol arrebatou o poder das mãos das mulheres e o entregou aos homens. Algumas delas, recusando se integrar à nova ordem, pegaram em armas e foram à luta, a fim de reconquistar o que lhes fora arrancado. Todavia, auxiliados por Jurupari, os homens venceram o embate e se tornaram senhores.

Derrotadas, as fabulosas mulheres guerreiras cruzaram vales, atravessaram rios e igarapés, escalaram montanhas até se perderem na sombra da floresta, no recôndito da mata. Nessas terras distantes formaram sua própria nação.

De quando em quando, entretanto, sempre ao fim da fria estação e no desabrochar das primeiras flores, um estranho contentamento contagiava as mulheres da aguerrida nação. Abrindo mão de arcos e flechas, elas desciam o alto das colinas para nas águas lustrais de um lago encantador purificarem os corpos. Faziam isto suplicando à Lua que esfriasse suas raivas e adoçasse suas falas, no que eram generosamente atendidas. Radiantes, elas percorriam vales e planícies à procura de guapos guerreiros para entre seus braços gozarem um gozo com gosto de desforra.


Fonte:
BENEVIDES, Sílvio. Histórias de Pindorama. Salvador: Editora da FIB, 2003.