sexta-feira, 24 de junho de 2011

Soberania - Manoel de Barros

Ganhei um dia no meu trabalho um livro caixa: uma caixa amarrada por uma fita amarela. Dentro, as paginas soltas eram um desafio feito à memória do autor. Fiz a leitura no mesmo dia que ganhei e o guardei...guardei...guardei e foi atendendo ao pedido de uma amiga, na busca de alguns escritos do autor que reencontrei o livro tão bem guardado e também reencontrei as minhas memórias da leitura do livro. Memórias essas não da minha infância, mas da minha leitura dos textos "Memórias Inventadas" de Manoel Barros.


 Memórias Inventadas - A Terceira Infância - Manoel de Barros
A série "Memórias Inventadas", concluída com a publicação desta "Terceira Infância", resultou de um desafio proposto ao poeta escrever sua autobiografia. Seus pequenos contos transportam o leitor para o tempo em que as crianças construíam seus próprios brinquedos. Texto e imagem se completam, compondo um cenário único.
Soberania
Manoel de Barros

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das ideias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Texto extraído do livro (caixa) "Memórias Inventadas - A Terceira Infância",
Editora Planeta - São Paulo, 2008 com iluminuras de Martha Barros.

sábado, 11 de junho de 2011

Variação Linguística: Por uma vida melhor.

Muita gente comentou sobre a polêmica em torno do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, adotado pelo MEC. Minha caixa de e-mail lotou. Foram muitas pessoas se colocando contra o livro sem saber do que se tratava.
Abrir revistas, jornais, entrei nas minhas redes sociais e o assunto era o mesmo.
Não queria ser mais uma e pegar o “bonde andando”.  Fui em busca do livro, de quem afinal fez a leitura e que sabia o que estava acontecendo.
Foi pensando nesses e-mails e nas notícias publicadas de uma forma descontextualiza que resolvi publicar  aqui um desabafo de alguém que tem conhecimento de causa e que se coloca bem articulada e conhecedora do assunto.
Com isso darei meu ponto final a essa polêmica.
Liane Castro de Araujo, doutoranda em educação (Faced/Ufba), supervisora de Escrita e Leitura da Via Magia permitiu aqui a publicação do seu desabafo:
Gente,
Li muitas coisas, ouvi muitas coisas, muitos argumentos – bons argumentos – de um lado e de outro da questão. E muita besteira também. Resolvi dar minha opinião.
Antes de tudo é preciso ler o tal capítulo do livro que gerou tanta polêmica a respeito do ensino da língua. Muita gente comentou Brasil afora, na mídia, na mesa de bares, nas escolas, nas redes sociais, sem ao menos tê-lo lido, criticando só a partir de frases tiradas de seu contexto e dos famosos achismos tão caros aos que não são da área. Por que será que temos esse gosto pelas dicotomias, polaridades, falsas polêmicas? Por que tudo vira um ringue entre os que acusam e os que defendem ardorosamente uma causa? Não podemos, como educadores que pensam a linguagem, cair na armadilha dessa dicotomia tosca que se criou.
E o engraçado é que o livro propõe justamente o ensino da gramática, da norma culta da língua...
Talvez a autora tenha, de fato, sido infeliz – até ingênua, talvez – no modo de colocar certas coisas, talvez até superestimando a capacidade dos seus leitores em compreender a questão em toda sua complexidade. Talvez ela tenha passado rápido demais pelo tema, não distinguindo a fundo a norma escrita e a falada, a norma ideal da gramática (que ninguém fala, nem os letrados) e a norma real, o padrão e o culto, a gramática e a língua. Talvez ela tenha sido apressada no trecho que indica que “claro que pode falar assim”, considerando a complexidade da questão e a delicadeza do tema para quem não é da área e não acompanha as discussões sobre a variação linguística. Acho que ela não pensou que pudesse ser tão chocante para uns, algo tão já discutido no meio linguístico. Talvez. Talvez ela pudesse ter sido mais cuidadosa na transposição do que é saber da linguística e o modo de abordar, no ensino, a realidade da existência de variedades faladas (para ensinar a norma, diga-se de passagem). Mas daí a essa reação apaixonada contra o que ela trata no capítulo, me parece mais equivocada ainda. Caímos de novo naquela de que a gramática, a norma culta, etc, etc, são tesouros intocáveis, quase divinos? Precisava tanta inflamação?
Acho que é preciso sim reconhecer as variedades, sua legitimidade como língua portuguesa, para partir daí para o ensino da linguagem valorizada socialmente. Só assim milhares de alunos serão reconhecidos como falantes do português, embora passem a tomar consciência de que sua variedade não tem muito prestígio social. Vão aprender sabendo o porquê de aprender, não achando que é porque não falam português. Acho justíssimo sim, esse tema ser tema de estudo da área de linguagem na escola, se a escola é para todos.
Marcar de forma redundante o plural numa frase, como faz a língua portuguesa, não é necessariamente a única forma de marcar plural e isso pode até mudar, como já mudou em várias línguas, argumento que, evidentemente, não invalida a norma atual da língua culta. Talvez a autora tenha se apressado no modo de fazer suas colocações, mas sua perspectiva é a da ciência linguística. Não concordo que haja uma separação estanque entre a ciência linguística e a prática educativa. Fosse assim, não teria havido mudanças essenciais no ensino da língua a partir dos estudos da língua nas últimas décadas. Há a tal “transposição didática”, evidentemente, não se trata de uma aplicação direta. É evidente que os conhecimentos linguísticos, descritivos da língua, não são para serem, todos, repassados para os alunos tal e qual. Saber como funciona e ensinar, realmente, não são a mesma coisa. Mas também não são objetos estanques, impermeáveis. Parece-me essencial a contribuição da sociolinguística desde os anos 70 e da linguística contemporânea para o ensino da língua hoje e, mais ainda, junto com isso, para a mudança de atitude quanto ao tratamento das questões de linguagem na escola. Em especial o tratamento dado em relação às variedades faladas pelos alunos, o modo como os acolhemos na escola. A língua culta não é um tijolo maciço estanque, inquebrável, imutável e intocável. E é assim que ela tem aparecido na mídia!
De novo vemos os burgueses letrados tremerem de medo do falar de grande parte do povo brasileiro, por esse falar estar explicitado em um livro, outro objeto intocável, símbolo do que é mais culto! Nossa, que heresia, heim?!!!
O livro em questão, no entanto, não prega falar “errado” nem ensinar aos letrados as variedades não cultas da língua para que possam falá-la também. Que despautério desses que foram à TV afirmá-lo! E como se pode constatar ao lê-lo, curiosamente, o livro pretende, justamente, ensinar a norma culta. Colocar as coisas nos seus lugares é muito saudável, inclusive destronando a norma culta de um trono imaculado, com a faixa “língua portuguesa” atravessada no peito, acho que é isso que a linguística faz, e que o livro acusado tentava fazer.
O que os linguístas discutem hoje, de sua perspectiva descritiva da língua falada, não pode ser ignorado pela escola. Especialmente a escola pública, que recebe alunos que falam variedades bem distantes da norma culta. Isso já sabemos. Os modos de fazê-lo podem, esses, ser discutidos, sim, concordo. Não ensinar a norma culta é reafirmar o fosso, concordo. A própria autora do livro, sem dúvida, sabe disso. Ninguém está pregando “cada um no seu quadrado”!!! Mas ignorar o fenômeno da variação é uma injustiça ainda maior. Reconhecer a variedade e conceber a norma como uma variedade de prestígio – e que o é por razões diversas, inclusive históricas, sociais, políticas – é um primeiro passo para uma atitude de não preconceito, que me parece, é papel da educação. Aliás, é bom lembrar, a expressão “preconceito linguístico” não foi um delírio cunhado por essa autora em especial, como muitos estão dizendo, mas faz parte do campo conceitual da ciência linguística. Não dá para separar de todo linguagem, educação e poder. Não é possível que, com tudo que sabemos hoje sobre a história da constituição de uma língua padrão, sobre fenômenos e mudanças linguísticas, continuemos tratando a norma culta como “a língua portuguesa” e as demais variedades todas como distorções dela. E é esse trono que está sendo propalado pela mídia.
Porque ninguém se incomoda que hoje se fale a palavra “balde” como /baudji/ e não como /balde/, como falava meu avô e uns poucos de cabeça branca que ainda restam vivos? (tentar falar assim, para nós, hoje, faz uma dobra na língua que parece até inglês!!!). Porque não incomoda os defensores da língua culta que uma moça bem letrada diga a seu marido, filho ou a seu funcionário: “Benhê, traz um copo d’água, por favor. Você traz?”, "João, leva esse livro pra estante, tá?", “Filho, vem cá! Você quer jogar?”. Por que para os letrados a tolerância é maior? O letramento permite que todos se policiem para usar a norma culta nas situações sociais em que esta é exigida. Para falar “se eu vir...”, “assisti ao filme...” muitos de nós temos que nos policiar (ao menos enquanto a língua não mude nesses aspectos), e relaxamos entre amigos, não? Por que toleramos as diferenças entre norma ideal e real quando quem abre a boca é de uma camada mais culta da sociedade? E por que incomoda tanto os que dizem “Eu toco frauta muito bem”? O preconceito linguístico é sim, antes de tudo, preconceito social. Acredito nisso sim! Isso nós precisamos, como educadores, ter em mente e combater a cada dia. E é a linguística que pode nos dar essa dimensão (ainda que, por vezes alguns também relativizem demais a questão, do ponto de vista da educação). Não podemos ignorar esse fato, ao preço de mascararmos a questão do poder que está entranhada nas questões de linguagem. Até porque o grande Camões não só falou, como escreveu frauta em seu texto mais famoso. E por quê? Por que a língua muda! E porque só valem as mudanças estabelecidas pelas camadas sociais mais prestigiadas? Precisa responder? Acho que não, né? Aliás, não fosse esse tipo de fenômeno linguístico nem haveria língua portuguesa! O certo é que esses fenômenos existem e são eles os responsáveis por formar as línguas, além de modificá-las (não necessariamente deturpá-las, como querem alguns).
Bom, isso tudo evidentemente não quer dizer que não seja para ensinar a norma culta escrita, e até mesmo a falada. Por questões sociais, sim, e em especial pelo direito ao acesso à língua em que se registram os textos escritos na nossa sociedade. Todo o livro da autora massacrada é isso, para ensinar a norma culta da língua!
Ainda que essa repercussão do livro possa também gerar uma discussão fecunda, estou com Faraco, Possenti, Magda Soares, até mesmo Marcos Bagno, dentre outros, que reconhecem nessa querela toda uma falsa polêmica, uma polaridade absurda, estanque e que, feita dessa forma tão inflamada, penso eu, é burra. A complexidade da questão não cabe em cinco minutos de noticiário no jornal e nos melindres de defensores ardorosos da redoma de vidro inquebrável da norma culta, que desconhecem a própria dinâmica das línguas
Toda polaridade absoluta é burra.
Estou também com Bakhtin, para quem há na linguagem, como na vida social, forças centrípetas que tendem para a conservação, a homogeneização e forças centrífugas que impelem para o descentramento, a transformação, a diversidade. Essa tensão entre elas permeia o movimento incessante da linguagem. É a dinâmica da linguagem, da língua, da vida!!!
É como penso.
Liane Castro de Araujo (Lica)

domingo, 5 de junho de 2011

Poema Falado - Quadrilha

O amor por vezes é paixão, por vezes é alegria, por vezes, solidão. O amor por vezes é tudo, por vezes, nada. Há momentos em que o amor se converte em magníficos encontros. Em outros, porém, o amor é só desencontro, tristeza, morte. Talvez o amor seja mesmo um grande labirinto repleto de vias estreitas e encruzilhadas perfeitas. Para homenagear o amor no mês em que o amor homenageia os enamorados, o Poema Falado de junho traz o texto QUADRILHA, do sempre magnífico Carlos Drummond de Andrade, que diz: “João amava Teresa / que amava Raimundo / que amava Maria / que amava Joaquim / que amava Lili / que não amava ninguém. // João foi para os Estados Unidos / Teresa para o convento / Raimundo morreu de desastre / Maria ficou para tia / Joaquim suicidou-se / e Lili casou com J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história”. Boa leitura audiovisual!




Imagem: Eros e Psique, por François Gêrard.

domingo, 22 de maio de 2011


O Menino Que Carregava Água Na Peneira

 Manoel de Barros
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Professora: vamos falar,sim!!


A professora Amanda Gurgel, do estado do Rio Grande do Norte, chegou a ser um dos assuntos mais comentados semana passada na internet após criticar em audiência pública para debater a educação à secretária de Educação do Estado e outros deputados presentes.

“O discurso foi feito no último dia 10 de maio, na Assembleia Legislativa. A professora iniciou sua fala revelando o valor de seu salário, de 930 reais, e perguntando aos deputados e secretários presentes se eles conseguiriam viver com o que ela ganha. Amanda ainda falou sobre as dificuldades cotidianas dos professores e o tratamento desmerecedor dado pelos governos ao longo dos últimos anos à educação. O vídeo desse discurso foi difundido intensamente na Web e está entre os assuntos mais falados nas redes sociais.”
Parabéns, professora!!
Que bom ter professoras como ela no nosso Brasil!



domingo, 1 de maio de 2011

Poema Falado: Esperando os Bárbaros

De acordo com o dicionário, a palavra bárbaro se origina do latim barbàrus, que se refere a um estrangeiro, isto é, um indivíduo não identificado com os costumes do observador. Par os antigos gregos, bárbaros eram aqueles que pertenciam a outra raça ou civilização e falava outra língua que não a deles. No Império Romano, o termo adquiriu outro significado, passando a designar que ou quem é incivilizado, rude, grosseiro. Os chamados povos bárbaros, principalmente, os Hunos e os Germânicos, promoveram sucessivas invasões ao Império Romano do Oriente e do Ocidente o que, por sua vez, desencadeou mudanças irreversíveis no curso da história ocidental. Os bárbaros são assim, inquietos, rebeldes. E essa rebeldia é extremamente saudável, pois ela é o motor que impulsiona as mudanças. Ao longo da história humana existiram vários bárbaros. Nas décadas de 1960 e 1970 eles foram tão numerosos que por todo o mundo ajudaram a derrubar ditaduras políticas, regimes conservadores, costumes, práticas e idéias opressivas, pregaram a paz, oxigenaram o mundo e a vida em sociedade com seus ideais de liberdade e suas utopias maravilhosas. Hoje em dia, porém, o tilintar dos metais preciosos e seus valores perniciosos parecem ter silenciado as utopias. Onde foi parar a rebeldia? Por onde andam os bárbaros? O mundo precisa dos bárbaros como escreveu o poeta grego nascido em Alexandria, Konstantinos Kaváfis, que o Poema Falado deste mês homenageia. Diz ele: “Mas que esperamos nós aqui n'Ágora reunidos? / É que os bárbaros hoje vão chegar! / Mas porque reina no Senado tanta apatia? / Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores? / É que os bárbaros hoje vão chegar. / Que leis hão-de fazer os senadores? / Os bárbaros que vêm, que as façam eles. // Mas porque tão cedo se ergueu hoje o nosso imperador, / E se sentou na magna porta da cidade à espera, / Oficial, no trono, co'a coroa na cabeça? / É que os bárbaros hoje vão chegar. / O nosso imperador espera receber / O chefe. E certamente preparou / Um pergaminho para lhe dar, onde / Inscreveu vários títulos e nomes. // Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores / trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas? / E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas, / e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes, / por que razão empunham hoje bastões preciosos / com tão finos ornatos de ouro e prata cravejados? / É que os bárbaros hoje vão chegar. / E tais coisas os deixam deslumbrados. // Por que não acorrem como sempre nossos ilustres oradores / a brindar-nos com o jorro feliz de sua eloqüência? / Porque hoje chegam os bárbaros / que odeiam a retórica e os longos discursos. // Por que de repente essa inquietude / e movimento? (Quanta Gravidade nos rostos!) / Por que esvazia a multidão ruas e praças / e sombria regressa a suas moradas? // Porque a noite cai e não chegam os bárbaros / e gente vinda da fronteira / afirma que já não há bárbaros. // E o que será agora de nós sem bárbaros? / Talvez eles fossem uma solução afinal de contas”. Boa áudio-leitua! (por Sílvio Benevides)









Imagem: Jason Momoa in Conan, the barbarian. Foto de Simon Varsano.





sábado, 23 de abril de 2011

Carta do Deputado Jean Wyllys - uma ode ao estado Laico

Em primeiro lugar, quero lembrar que nós vivemos em um Estado Democrático de Direito e laico. Para quem não sabe o que isso quer dizer, “Estado laico”, esclareço: O Estado, além de separado da Igreja (de qualquer igreja), não tem paixão religiosa, não se pauta nem deve se pautar por dogmas religiosos nem por interpretações fundamentalistas de textos religiosos (quaisquer textos religiosos). Num Estado Laico e Democrático de Direito, a lei maior é a Constituição Federal (e não a Bíblia, ou o Corão, ou a Torá).
Logo, eu, como representante eleito deste Estado Laico e Democrático de Direito, não me pauto pelo que diz A Carta de Paulo aos Romanos, mas sim pela Carta Magna, ou seja, pelo que está na Constituição Federal. E esta deixa claro, já no Artigo 1º, que um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é a dignidade da pessoa humana e em seu artigo 3º coloca como objetivos fundamentais a construção de uma sociedade livre, justa e solidária e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. A república Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos princípios da prevalência dos Direitos Humanos e repúdio ao terrorismo e ao racismo.
Sendo a defesa da Dignidade Humana um princípio soberano da Constituição Federal e norte de todo ordenamento jurídico Brasileiro, ela deve ser tutelada pelo Estado e servir de limite à liberdade de expressão. Ou seja, o limite da liberdade de expressão de quem quer que seja é a dignidade da pessoa humana do outro. O que fanáticos e fundamentalistas religiosos mais têm feito nos últimos anos é violar a dignidade humana de homossexuais.
Seus discursos de ódio têm servido de pano de fundo para brutais assassinatos de homossexuais, numa proporção assustadora de 200 por ano, segundo dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia e da Anistia Internacional. Incitar o ódio contra os homossexuais faz, do incitador, um cúmplice dos brutais assassinatos de gays e lésbicas, como o que ocorreu recentemente em Goiânia, em que a adolescente Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, que, segundo a mídia, foi brutalmente assassinada por parentes de sua namorada pelo fato de ser lésbica. Ou como o que ocorreu no Rio de Janeiro, em que o adolescente Alexandre Ivo, que foi enforcado, torturado e morto aos 14 anos por ser efeminado.
O PLC 122 , apesar de toda campanha para deturpá-lo junto à opinião pública, é um projeto que busca assegurar para os homossexuais os direitos à dignidade humana e à vida. O PLC 122 não atenta contra a liberdade de expressão de quem quer que seja, apenas assegura a dignidade da pessoa humana de homossexuais, o que necessariamente põe limite aos abusos de liberdade de expressão que fanáticos e fundamentalistas vêm praticando em sua cruzada contra LGBTs.
Assim como o trecho da Carta de Paulo aos Romanos que diz que o “homossexualismo é uma aberração” [sic] são os trechos da Bíblia em apologia à escravidão e à venda de pessoas (Levítico 25:44-46 – “E, quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das gentes que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas…”), e apedrejamento de mulheres adúlteras (Levítico 20:27 – “O homem ou mulher que consultar os mortos ou for feiticeiro, certamente será morto. Serão apedrejados, e o seu sangue será sobre eles…”) e violência em geral (Deuteronômio 20:13:14 – “E o SENHOR, teu Deus, a dará na tua mão; e todo varão que houver nela passarás ao fio da espada, salvo as mulheres, e as crianças, e os animais; e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e comerás o despojo dos teus inimigos, que te deu o SENHOR, teu Deus…”).
A leitura da Bíblia deve ensejar uma religiosidade sadia e tolerante, livre de fundamentalismos. Ou seja, se não pratica a escravidão e o assassinato de adúlteras como recomenda a Bíblia, então não tem por que perseguir e ofender os homossexuais só por que há nela um trecho que os fundamentalistas interpretam como aval para sua homofobia odiosa.
Não declarei guerra aos cristãos. Declarei meu amor à vida dos injustiçados e oprimidos e ao outro. Se essa postura é interpretada como declaração de guerra aos cristãos, eu já não sei mais o que é o cristianismo. O cristianismo no qual fui formado – e do qual minha mãe, irmãos e muitos amigos fazem parte – valoriza a vida humana, prega o respeito aos diferentes e se dedica à proteção dos fracos e oprimidos. “Eu vim para que TODOS tenham vida; que TODOS tenham vida plenamente”, disse Jesus de Nazaré.
Não, eu não persigo cristãos. Essa é a injúria mais odiosa que se pode fazer em relação à minha atuação parlamentar. Mas os fundamentalistas e fanáticos cristãos vêm perseguindo sistematicamente os adeptos da Umbanda e do Candomblé, inclusive com invasões de terreiros e violências físicas contra Ialorixás e Babalorixás como denunciaram várias matérias de jornais: é o caso do ataque, por quatro integrantes de uma igreja evangélica, a um centro de Umbanda no Catete, no Rio de Janeiro; ou o de Bernadete Souza Ferreira dos Santos, Ialorixá e líder comunitária, que foi alvo de tortura, em Ilhéus, ao ser arrastada pelo cabelo e colocada em cima de um formigueiro por policiais evangélicos que pretendiam “exorcizá-la” do “demônio”.
O que se tem a dizer? Ou será que a liberdade de crença é um direito só dos cristãos?
Talvez não se saiba, mas quem garantiu, na Constituição Federal, o direito à liberdade de crença foi um ateu Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Aforjá, Jorge Amado. Entretanto, fundamentalistas cristãos querem fazer uso dessa liberdade para perseguir religiões minoritárias e ateus.
Repito: eu não declarei guerra aos cristãos. Coloco-me contra o fanatismo e o fundamentalismo religioso – fanatismo que está presente inclusive na carta deixada pelo assassino das 13 crianças em Realengo, no Rio de Janeiro.
Reitero que não vou deixar que inimigos do Estado Democrático de Direito tente destruir minha imagem com injúrias como as que fazem parte da matéria enviada para o Jornal do Brasil. Trata-se de uma ação orquestrada para me impedir de contribuir para uma sociedade justa e solidária. Reitero que injúria e difamação são crimes previstos no Código Penal. Eu declaro amor à vida, ao bem de todos sem preconceito de cor, raça, sexo, idade e quaisquer outras formas de preconceito. Essa é a minha missão.



Jean Wyllys -Deputado Federal pelo PSOL Rio de Janeiro

domingo, 17 de abril de 2011

Sejamos Gays. Juntos.

Adriele Camacho de Almeida, 16 anos, foi encontrada morta na pequena cidade de Itarumã, Goiás, no último dia 6 de abril de 2011. O fazendeiro Cláudio Roberto de Assis, 36 anos, e seus dois filhos, um de 17 e outro de 13 anos, estão detidos e são acusados do assassinato. Segundo o delegado, o crime é de homofobia. Adriele era namorada da filha do fazendeiro que nunca admitiu o relacionamento das duas. E ainda que essa suspeita não se prove verdade, é preciso dizer algo.


Eu conhecia Adriele Camacho de Almeida. E você conhecia também. Porque Adriele somos nós. Assim, com sua morte, morremos um pouco. A menina que aos 16 anos foi, segundo testemunhas, ameaçada de morte e assassinada por namorar uma outra menina, é aquela carta de amor que você teve vergonha de entregar, é o sorriso discreto que veio depois daquele olhar cruzado, é o telefonema que não queríamos desligar. É cada vez mais difícil acreditar, mas tudo indica que Adriele foi vítima de um crime de ódio porque, vulnerável como todos nós, estava amando.


Sem conseguir entender mais nada depois de uma semana de “Bolsonaros”, me perguntei o que era possível ser feito. O que, se Adriele e tantos outros já morreram? Sim, porque estamos falando de um país que acaba de registrar um aumento de mais de 30% em assassinatos de homossexuais, entre gays, lésbicas e travestis.


E me ocorreu que, nessa ideia de que também morremos um pouco quando os nossos se vão, todos, eu, você, pais, filhos e amigos podemos e devemos ser gays. Porque a afirmação de ser gay já deixou de ser uma questão de orientação sexual.


Ser gay é uma questão de posicionamento e atitude diante desse mundo tão miseravelmente cheio de raiva.


Ser gay é ter o seu direito negado. É ser interrompido. Quantos de nós não nos reconhecemos assim?


Quero então compartilhar essa ideia com todos.


Sejamos gays.


Independente de idade, sexo, cor, religião e, sobretudo, independente de orientação sexual, é hora de passar a seguinte mensagem pra fora da janela: #EUSOUGAY


Para que sejamos vistos e ouvidos é simples:


1) Basta que cada um de vocês, sozinhos ou acompanhados da família, namorado, namorada, marido, mulher, amigo, amiga, presidente, presidenta, tirem uma foto com um cartaz, folha, post-it, o que for mais conveniente, com a seguinte mensagem estampada: #EUSOUGAY


2) Enviar essa foto para o e-mail: projetoeusougay@gmail.com


3) E só


Todas essas imagens serão usadas em uma vídeo-montagem será divulgada pelo You Tube e, se tudo der certo, por festivais, fóruns, palestras, mesas-redondas e no monitor de várias pessoas que tomam a todos nós que amamos por seres invisíveis.


A edição desse vídeo será feita pelo Daniel Ribeiro, diretor de curtas que, além de lindos de morrer, são super premiados: Café com Leite e Eu Não Quero Voltar Sozinho.


Quanto à minha pessoa, me chamo Carol Almeida, sou jornalista e espero por um mundo melhor, sempre.


As fotos podem ser enviadas até o dia 1º de maio.


Como diria uma canção de ninar da banda Belle & Sebastian: ”Faça algo bonito enquanto você pode. Não adormeça.” Não vamos adormecer. Vamos acordar. Acordar Adriele.


— Convido a todos os blogueiros de plantão a dar um Ctrl C + Ctrl V neste texto e saírem replicando essa iniciativa —

sábado, 16 de abril de 2011

Ou isto ou aquilo....

Cecília Meireles


Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!


Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!


Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.


É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!


Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.


Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...

e vivo escolhendo o dia inteiro!


Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.


Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

domingo, 3 de abril de 2011

Poema Falado: ESTRAMBOTE MELANCÓLICO


De acordo com o dicionário Houaiss, melancolia é um mal derivado do excesso de bile negra, que levava os indivíduos acometidos à lentidão, tristeza e prostração. Para a psiquiatria, trata-se de um estado mórbido caracterizado pelo abatimento mental e físico que pode ser manifestação de vários problemas psiquiátricos, tendendo, hoje, a ser considerado mais como uma das fases da psicose maníaco-depressiva. É, também, um estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral ou, ainda, depressão. Por extensão de sentido, pode significar um sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação. Para a filosofia, porém, melancolia é pura e simplesmente humor negro. Em linguagem comum significa tristeza sem motivo. Para um escultor de palavras, entretanto, melancolia é o mesmo que poesia, algum dia traduzido assim por Carlos Drummond de Andrade: “Tenho saudade de mim mesmo, /saudade sob aparência de remorso, / de tanto que não fui, a sós, a esmo, / e de minha alta ausência em meu redor. // Tenho horror, tenho pena de mim mesmo / e tenho muitos outros sentimentos / violentos. Mas se esquivam no inventário, / e meu amor é triste como é vário, / e sendo vário é um só. Tenho carinho / por toda perda minha na corrente / que de mortos a vivos me carreia / e a mortos restitui o que era deles / mas em mim se guardava. A estrela-d'alva / penetra longamente seu espinho / (e cinco espinhos são) na minha mão”. Boa áudio-leitura! (por Sílvio Benevides).