
domingo, 3 de abril de 2011
Poema Falado: ESTRAMBOTE MELANCÓLICO

segunda-feira, 14 de março de 2011
Monteiro Lobato, Ziraldo e Ana Maria Gonçalves
Nunca tinha ouvido falar na Ana Maria Gonçalves até chegar ao meu e-mail a carta abaixo reproduzida. Poucas vezes li um texto tão contundente, lúcido e bem fundamentado, no que diz respeito à defesa de uma causa, no caso específico, o combate ao racismo, que no Brasil é insistentemente negado. Se a carta da Ana Maria Gonçalves fosse a apresentação de um abaixo-assinado, eu o assinaria de imediato. O racismo brasileiro, tão “afetuoso”, precisa ser combatido nas mais variadas frentes e as escolas são, sem dúvida, uma dessas frentes. Nas escolas formam-se mentes. Nelas, definem-se os rumos de um povo, de uma sociedade, de um país, de uma nação. Por isso as escolas são tão importantes. Por isso a educação é um direito fundamental. Sendo um direito fundamental, precisa ser defendido, como o faz brilhantemente a Ana Maria Gonçalves, de quem já me tornei um admirador. Gostaria, entretanto, de fazer uma ressalva. De fato, o Monteiro Lobato foi um dos intelectuais mais racistas desse país. Não é preciso ser um profundo conhecedor da sua obra para constatar isso. A despeito dessa constatação, não estou certo se impedir que crianças leiam suas obras nas escolas brasileiras é a melhor solução para se combater as idéias racistas e eugênicas que ele tanto defendia. Idéias se combatem com idéias e não se pode combater algo que não se conhece. Impedir que o Monteiro Lobato seja lido nas escolas, não ajuda a combater as suas terríveis idéias sobre os negros e mestiços, mas, apenas, a escamoteá-las, o que, definitivamente, contribui, tão somente, para negar o já negado racismo nosso de cada dia. Bom mesmo é o debate. E não há melhor lugar para se debater esse assunto do que as escolas e as universidades. Então, que venha o Monteiro Lobato e tantos outros que, a despeito do talento, não passavam de reles racistas (por Sílvio Benevides).Carta aberta ao Ziraldo
Caro Ziraldo,Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).
Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".
Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não veem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".
Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.
Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".
No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.
O que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.
A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).
Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.
Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.
Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.
Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente.
Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.
Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".
Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,
Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.
domingo, 6 de março de 2011
Poema Falado: O eremita
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Poema Falado: Elegia a uma pequena borboleta
Quando criança costumava pegar borboletas com as mãos. Segurava-as com todo o cuidado, mas mesmo assim suas asas ficavam presas aos meus dedos, e a borboleta não conseguia voltar a voar. Parei, então, de segurar borboletas com as mãos, mas sempre que as vejo fico a pensar na coragem das borboletas. Voar para tão longe com asas tão delicadas. Acho que é assim o destino de quem nasceu para ser borboleta. Não tem jeito! Quem nasceu para voar, cedo ou tarde acaba voando, mesmo que lhe cortem as asas. É impossível aprisionar o destino (por Aline Lombello). A fim de homenagear as incansáveis e corajosas borboletas, o Poema Falado de fevereiro discorre sobre as borboletas por meio do belíssimo texto da inesquecível Cecília Meireles. Esta postagem é dedicada a PAPPILLON. Boa audioleitura!- inacabada seda viva! -
tuas antenas - fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,
como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,
minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.
Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
Não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!
Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.
Choro esta humana insuficiência:
_ a confusão dos nossos olhos,
- o selvagem peso do gesto,
- cegueira - ignorância - remotos
instintos súbitos - violências
que o sonho e a graça prostram mortos.
Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!
E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
- os espelhos que refletissem
_ vôo e silêncio - os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Iemanjá
Conta a tradição dos povos iorubás (atual Nigéria), que Iemanjá era a filha de Olokum, deus do mar. Em Ifé, tornou-se a esposa de Olofin-Odudua, com o qual teve dez filhos, todos orixás. De tanto amamentar seus filhos, os seios de Iemanjá tornaram-se imensos. Cansada da sua estadia em Ifé, Iemanjá fugiu na direção do “entardecer-da-terra”, como os iorubas designam o Oeste, chegando a Abeokutá. Iemanjá continuava muito bonita. Okerê propôs-lhe casamento. Ela aceitou com a condição que ele jamais ridicularizasse a imensidão dos seus seios. Um dia, Okerê voltou para casa bêbado. Tropeçou em Iemanjá, que lhe chamou de bêbado imprestável. Okerê então gritou: “Você, com esses peitos compridos e balançantes!” Ofendida, Iemanjá fugiu. Okerê colocou seus guerreiros em perseguição e Iemanjá, vendo-se cercada, lembrou que tinha recebido de Olokum uma garrafa, com a recomendação que só abrisse em caso de necessidade. Iemanjá tropeçou e esta quebrou-se, nascendo um rio de águas tumultuadas, que levaram Iemanjá em direção ao oceano, residência de Olokum. Okerê tentou impedir a fuga de sua mulher e se transformou numa colina. Iemanjá, vendo bloqueado seu caminho, chamou Xangô, o mais poderoso dos seus filhos, que lançou um raio sobre a colina Okerê, que abriu-se em duas, dando passagem para Iemanjá, que foi para o mar, ao encontro de Olokum. Iemanjá usa roupas cobertas de pérola, tem filhos no mundo inteiro e está em todo lugar onde chega o mar. Seus filhos fazem oferendas para acalmá-la e agradá-la. Iemanjá, Odô Iyá (rainha das águas), nunca mais voltou para a terra. Ainda existe, na Nigéria, uma colina dividida em duas, de nome Okerê, que dá passagem ao rio Ogun, que corre para o oceano (Fonte: Portal do Rio Vermelho).Para homenagear a Rainha do Mar, o Salvador na sola do pé preparou um Poema Falado especial, que será também postado aqui no Bienvenue-Ami, intitulado Flor à Iemanjá, de Augusto Barros. Diz o poema: “Os meus pés não sentem mais o chão / Já não afundam como antes / Apenas sigo adiante ao fundo / Embalado pelo ritmo de sua canção // A melodia do azul das ondas / Quando se confunde com o bege / Gritando em brancas espumas / Faz com que eu, por hora, suma // E o maestro que rege / Esta orquestra dessincronizada / Já não habita aqui há tempos... / Tudo, então, como queiram os ventos // Nessa confusão de cores e sons / O mar invade cada vez mais o meu corpo / Por dentro e por fora... / E assim deixo // Deixo porque agora / Descobri que somente sendo / Inteiramente seu /
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
CENSURA NO YOUTUBE!
Eu, Papillon, reproduzo aqui no nosso cantinho o texto abaixo porque a censura ao Poema Falado Idéias Íntimas, do Álvares de Azevedo, também atingiu este espaço. Até concordo que devam existir regras e limites. Acho que ninguém discorda disso. Mas a censura pura e simples, baseada em critérios pouco claros é inadmissível. Por isso endosso o protesto abaixo.Censurar. Verbo transitivo direto que de acordo com o dicionário Houaiss significa exercer censura moral, política, estética, religiosa, entre outros tipos, sobre produção artística ou informativa, espetáculo etc. foi exatamente isso que ocorreu com o Poema Falado “Idéias Íntimas IX”, escrito pelo poeta romântico Álvares de Azevedo.
Os Poemas Falados são pequenos vídeos que produzo para divulgar os meus poemas prediletos. Os textos vêm acompanhados de música e imagens que ajudam a traduzir a intenção central da poesia retratada. A idéia de se fazer Poemas Falados surgiu como uma brincadeira instigada pela Pappillon. Depois virou um dos meus passatempos prediletos, quase um vício. Desde agosto de 2009 passei a postá-los aqui e em outros espaços como os blogs amigos Bienvenue-Ami e O Cantinho de Coccinelle. O objetivo é formar uma rede tecida por versos e sons magníficos, afinal, como disse o Carlos Drummond de Andrade, “uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”. Trata-se do prazer da arte pela arte, sem nenhum propósito comercial.
Eis que na semana passada fui surpreendido por uma mensagem do Youtube, onde os Poemas Falados são postados, comunicando a retirada do poema “Idéias Íntimas IX”, classificado como impróprio por conter cenas de nudez e sexo (seria isto pornografia?). Sim,o vídeo contém cenas de nudez, mas não de sexo. Ademais, qual o problema com a nudez e o sexo? Existe uma diferença enorme entre sexo e pornografia. Sei bem que a pornografia está, sobretudo, na mente e nos olhos de quem vê, mas isso é outra história que não estou a fim de discutir nesse momento. O fato é que a censura ocorreu e o Álvares de Azevedo, um dos maiores nomes da poesia de língua portuguesa, assim como o Amadeu Modigliani, o William Etty, o diretor português João Pedro Rodrigues e o músico Alberto Iglesias foram banidos em nome de uma moralidade duvidosa. Isso tudo me fez perceber o quão encoberto por tabus o corpo se encontra. Mudam os tempos, mas os tabus permanecem quase intactos.
Sabendo do fato, alguns amigos meus se pronunciaram no Facebook nos seguintes termos: “o incrível é que se fossem imagens de violência explícita aí não teria problema, existem inúmeras no Youtube. O moralismo hipócrita prevalece” (PM); “a censura sem limites...e o pior que quem censura é o público....já que é censura deveriam ter uma equipe para analisar os fatos e não deixar a hipócritas tomarem conta e fazer o que desejam” (GCR); “é impressionante como fica claro que não há interesse nenhum em fomentar algo que estimule a educação e ou a contemplação da arte! Afinal isso estimularia o pensar, e representa uma situação ‘extremamente perigosa’ para quem não interessa a partilha. O que não é censurado, por exemplo, é a violência e inutilidade, afinal, essas contribuem efetivamente para manter uma aura de inferioridade e infelicidade coletiva” (MC).
O debate está lançado. O vídeo censurado pode ser acessado AQUI. Será que este vídeo é mesmo impróprio? Opine. Caso queira fazer parte da rede para publicar em seu blog/sítio os Poemas Falados é só entrar em contato que eu enviarei os textos e links da postagem (por Silvio Benevides).
domingo, 2 de janeiro de 2011
Presidência da República do Brasil.

A petista Dilma Vana Rousseff, 63, tomou posse como a primeira mulher e a 40ª pessoa a ocupar a Presidência da República do Brasil.Num longo discurso no Congresso Nacional, em que citou o escritor mineiro Guimarães Rosa (1908-1967), Dilma fez várias menções à questão de gênero, louvou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e prometeu erradicar a miséria e transformar o Brasil num país de "classe média sólida e empreendedora".A presidente chorou no final da fala, ao mencionar sua participação na luta armada contra a ditadura e homenagear os que "tombaram pelo caminho". Ela fez menção à tortura ao dizer que suportou as "adversidades mais extremas" infligidas a quem "ousou" "enfrentar o arbítrio". "Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor".Dilma prometeu ser "rígida" no combate à corrupção. "Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito...."
O governo tem 24 ministérios, mais dez secretarias têm caráter ministerial, além do Banco Central, da AGU (Advocacia Geral da União) e da CGU (Controladoria Geral da União).
Os ministros são indicados pelo presidente e formam o primeiro escalão do governo. Criam normas, estratégias, programam políticas e administram verbas para cada área.
Saiba o que faz cada ministério e quem vai comandar as pastas do futuro governo:
1-A economista Tereza Campello, de 48 anos, vai comandar o Ministério do Desenvolvimento Social. Ela está no governo desde o início do primeiro mandato de Lula e ocupava a subchefia de Articulação e Monitoramento da Casa Civil. Tereza é casada com Paulo Ferreira, ex-tesoureiro do PT.
2-A socióloga Luiza Helena de Bairros, de 57 anos, é a nova ministra da Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial). De 2005 a 2007, foi consultora do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) para questões de gênero e raça.
3-Afonso Florence é ex-secretário de Desenvolvimento Urbano da Bahia e, nas eleições de outubro, foi eleito deputado federal. Foi escolhido por Dilma para comandar o Ministério do Desenvolvimento Agrário
4-O general do Exército José Elito Carvalho Siqueira assume o Gabinete de Segurança Institucional. Elito comandou a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti em 2006 e 2007. Nascido em Aracaju em 1946, ele entrou nas Forças Armadas aos 20 anos e é mestre e doutor em ciências militares
5-A deputada federal Iriny Lopes (PT-ES), uma das fundadoras da legenda no Estado, é a nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres. Conhecida por seu trabalho na Câmara em defesa dos direitos civis, passou por dois mandatos e presidiu a Comissão de Direitos Humanos e Minorias.
6-Dilma convidou o ministro Jorge Hage para seguir à frente da CGU (Controladoria Geral da União). Advogado, Hage tem 72 anos e está no cargo desde junho de 2006
7-O deputado federal do PT do Rio Luiz Sérgio vai ficar na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência. Ele entra no lugar de Alexandre Padilha, escolhido para comandar o Ministério da Saúde.
8-Leônidas Cristino é prefeito de Sobral e foi indicado pelo governador do Ceará, Cid Gomes, para ocupar a Secretaria Especial de Portos. Cristino é do PSB e entra na cota do partido no futuro governo.
9-Secretário de Desenvolvimento de Pernambuco, Fernando Bezerra Coelho (PSB) foi escolhido por Dilma para comandar o Ministério da Integração Nacional.
10-Médico infectologista, Alexandre Padilha, de 39 anos, é o novo ministro da Saúde. No governo do presidente Lula, esteve à frente da pasta das Relações Institucionais, responsável pela articulação política. Ainda quando ocupava a subchefia de Assuntos Federativos do Planalto acompanhava a então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff em reuniões da base aliada.
11-Baiano de Salvador, Orlando Silva continua à frente do Ministério do Esporte. Aos 39 anos, leva no currículo a realização dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, em 2007, e a conquista dos direitos para sediar a Copa do Mundo de 2014 no Brasil e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio.
12-Luiz Inácio Adams foi confirmado para continuar na AGU (Advocacia-Geral da União) 45 anos, gaúcho, advogado Era o procurador-geral da Fazenda Nacional até assumir o comando da Advocacia-Geral da União (AGU), em substituição ao ministro José Antonio Dias Toffoli, nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF). Ao permanecer na AGU, Luis Inácio Adams se afastou momentaneamente da disputa por outra vaga no STF, a do ministro Eros Grau, o que não exclui, porém, a possibilidade de ser indicado para uma cadeira da corte no futuro.
13-Deputado federal, Mário Negromonte (PP-BA) é advogado e já foi filiado ao PMDB e PSDB. Vai substituir Marcio Fortes, também do PP. Muito cobiçada, a pasta de Cidades, criada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003, é responsável pelo programa Minha Casa, Minha Vida.
14-Ana de Hollanda, irmã do compositor Chico Buarque de Hollanda, é atriz, cantora e também compositora. Ana tem 62 anos e já foi diretora de Música da Funarte (Fundação Nacional de Artes). No Ministério da Cultura, Ana de Hollanda substituirá Juca Ferreira, no cargo desde 2008. Antes, quem chefiava a pasta era o cantor Gilberto Gil.
15-O atual ministro da Educação, Fernando Haddad, irá permanecer no cargo durante o próximo governo, apesar do desgaste em decorrência de problemas enfrentados na aplicação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2009 e 2010. Advogado, mestre em economia e doutor em filosofia, ele foi secretário-executivo da pasta antes de ser nomeado para comandá-la. Haddad também foi assessor especial do Ministério do Planejamento. Ele é ministro da Educação desde 2005.
16-Ministro do Trabalho e Emprego desde 2007, Carlos Roberto Lupi, 53, vai permanecer no cargo no próximo governo. Líder licenciado do PDT, o ministro já foi Secretário de Governo do Rio de Janeiro e Secretário Municipal dos Transportes na capital fluminense. Com formação em administração de empresas e economia, foi deputado federal, é casado e tem três filhos.
17-O Ministério do Meio Ambiente continuará sob o comando da bióloga Izabella Teixeira (sem partido), no cargo desde abril de 2010, com a saída de Carlos Minc. Com perfil considerado técnico, integrou a direção do Ibama, foi Subsecretária do Meio Ambiente do Rio de Janeiro e secretária executiva do ministério, entre 2008 e 2009.
18-O ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel será o novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Amigo pessoal de Dilma, Pimentel é economista e trabalhou na campanha da petista até ser afastado da equipe por seu suposto envolvimento na montagem de um dossiê antitucano.
19-A jornalista Helena Chagas será a nova ministra da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Ela ocupará o lugar de Franklin Martins. Formada em jornalismo pela UnB (Universidade de Brasília), Helena passou por redações de grandes veículos de comunicação nas quais se destacou na cobertura política do Congresso Nacional. Este ano, a jornalista coordenou a área de imprensa da campanha presidencial de Dilma Rousseff.
20-A senadora Ideli Salvatti foi indicada para o Ministério da Pesca e Aquicultura. Ela tem 58 anos e estudou física. Nos anos 90, foi eleita deputada estadual. Em 2002, tornou-se a primeira senadora do Estado de Santa Catarina, e no Congresso foi líder da bancada petista e do governo.
21-A petista Maria do Rosário, escolhida para substituir Paulo Vannuchi na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, é pedagoga, professora da rede pública e mestre em educação e violência infantil. Na década de 1990, foi vereadora em Porto Alegre por dois mandatos. Posteriormente, elegeu-se deputada estadual. Maria do Rosário chegou à Câmara dos Deputados em 2002, reelegendo-se em 2006 e neste ano. Em 2008, concorreu à prefeitura de Porto Alegre, mas não se elegeu.
22-Após ser derrotado na disputa pelo governo do Amazonas, Alfredo Nascimento (PR), de 58 anos, retornará ao Ministério dos Transportes, pasta que ele passou a comandar em 2004, quando renunciou à prefeitura de Manaus. Dois anos depois, elegeu-se senador pelo Amazonas, mas em pouco tempo se licenciou do mandato para voltar ao ministério. Neste ano, Nascimento deixou o governo em março para participar da eleição. Ele foi derrotado por Omar Aziz (PMN). O ministro é bacharel em letras e em matemática.
23-O sociólogo Moreira Franco, de 66 anos, confirmado na Secretaria de Assuntos Estratégicos, governou o Rio de Janeiro entre 1987 e 1991 e integra a Comissão Executiva Nacional do PMDB. Durante a campanha, representou seu partido na elaboração do programa de governo de Dilma. Entre 1998 e 2002, foi assessor especial do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e em 2008 se tornou vice-presidente de Fundos e Loterias da Caixa Econômica Federal.
24-O senador Garibaldi Alves Filho (RN) ocupará o Ministério da Previdência. A pasta foi oferecida como "moeda de troca" para o PMDB, que perdeu as pastas das Comunicações e Integração Nacional.
25-O deputado Pedro Novais (PMDB-MA) vai assumir o Ministério do Turismo, considerado estratégico no próximo governo por causa da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. A indicação teria partido do líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), que buscava um nome do Nordeste para a pasta. O novo ministro já se envolveu em um escândalo antes mesmo de assumir o cargo.
26-Atualmente no comando do Ministério do Planejamento, para o qual Dilma já designou Miriam Belchior, Paulo Bernardo foi o escolhido para ocupar a pasta das Comunicações. Natural de São Paulo, ele tem 58 anos e foi deputado federal por três mandatos. Bernardo está no Ministério do Planejamento desde 2005. Antes, foi secretário da Fazenda de Mato Grosso do Sul e do município de Londrina (PR).
27-Antônio Palocci, de 50 anos, é médico sanitarista e foi confirmado na Casa Civil, retornando assim ao primeiro escalão do governo. Palocci foi o primeiro ministro da Fazenda de Lula, função que deixou de exercer em 2006 após se ver envolvido no escândalo da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Naquele mesmo ano, elegeu-se deputado federal. O paulista foi um dos coordenadores da campanha de Dilma e integra sua equipe de transição.
28-O paranaense Gilberto Carvalho ocupará a Secretaria-Geral da Presidência. Atual chefe de gabinete de Lula, ele é um dos assessores mais próximos do presidente e um de seus principais conselheiros. Seu futuro cargo, hoje ocupado por Luiz Dulci, tem entre suas atribuições o relacionamento e a articulação com entidades da sociedade civil, a elaboração da agenda futura do presidente e a preparação de seus discursos. Carvalho foi seminarista e se graduou em filosofia. Entre o fim da década de 1990 e o começo dos anos 2000, trabalhou na prefeitura de Santo André.
29-Convidado por Dilma para ocupar o Ministério da Justiça, José Eduardo Cardozo é deputado federal e secretário-geral do PT. Durante a campanha, foi um dos escudeiros de Dilma, ao lado de José Eduardo Dutra e Antônio Palocci. Paulista, o parlamentar tem 48 anos, é advogado e procurador do município de São Paulo desde 1982.
30-Guido Mantega, de 61 anos, permanecerá no Ministério da Fazenda, pasta que comanda desde março de 2006. Naquela ocasião, ele foi indicado para substituir Antonio Palocci, que deixou o cargo em meio ao escândalo da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Nascido em Gênova, na Itália, o ministro veio ainda criança para o Brasil, estudou economia e é doutor em Sociologia do Desenvolvimento. Antes de chegar à Fazenda, ele foi ministro do Planejamento e presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
31-Alexandre Tombini, indicado para assumir a presidência do Banco Central, nasceu em Porto Alegre (RS) no dia 9 de dezembro de 1963 e é funcionário de carreira. Graduado em economia pela UnB (Universidade de Brasília) e Ph.D. pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, ele comanda o departamento de Normas do BC e foi uma opção "caseira" para assumir o lugar de Henrique Meirelles, no cargo desde 2003, quando teve início o governo Lula. No Banco Central, ele também foi diretor de Assuntos Internacionais e de Estudos Especiais. Além disso, trabalhou no escritório da representação brasileira no FMI (Fundo Monetário Internacional).
32-Miriam Belchior, que assumirá o Ministério do Planejamento no lugar de Paulo Bernardo, trabalhou com Dilma na Casa Civil e é secretária-executiva do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Ela integrou a equipe de transição do governo Lula e foi posteriormente chamada para a Casa Civil por José Dirceu, ex-titular da pasta. Miriam, de 54 anos, foi casada com o ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, mas os dois já estavam separados quando ele foi assassinado, em 2002. A futura ministra é formada em engenharia de alimentos pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e mestre em administração pública
33-O senador Edison Lobão retornará ao Ministério das Minas e Energia, cargo que deixou em 31 de março deste ano para se candidatar a mais um mandato parlamentar - foi reeleito com 1,7 milhão de votos. Embora tenha se graduado em direito, Lobão trabalhou como jornalista. Entre 1991 e 1994, foi governador do Maranhão. Sua chegada ao Ministério das Minas e Energia ocorreu em janeiro de 2008.
34- Candidato derrotado ao governo de São Paulo nas eleições deste ano, o economista e senador Aloizio Mercadante (PT-SP), de 56 anos, será o novo ministro de Ciência e Tecnologia do governo da presidente Dilma Rousseff.
35-O empresário e produtor rural Wagner Rossi, à frente do Ministério da Agricultura desde março de 2010, permanecerá na pasta. Nascido em São Paulo, Rossi, que é filiado ao PMDB, presidiu a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), foi secretário de diversas pastas no governo paulista, como Transportes, Infraestrutura Educação e Esportes, e chefiou a Codesp (Companhia Docas do Estado de São Paulo). O ministro é graduado em direito e administração de empresas.
36- Luciano Coutinho permanece na presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), onde está desde 2007. Nascido em Pernambuco, ele é economista e doutor pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Especialista em economia industrial e internacional, foi também secretário-executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia.
37- O diplomata Antônio de Aguiar Patriota foi confirmado como sucessor de Celso Amorim no Ministério das Relações Exteriores. Patriota é secretário-geral do Itamaraty, segundo posto na hierarquia do órgão. Filho do embaixador Antônio Patriota, ele nasceu no Rio de Janeiro, mas viveu na Europa, na Ásia, em países da América do Sul e nos Estados Unidos. Formado em filosofia, entre 2007 e 2009 foi embaixador do Brasil em Washington. Patriota e Amorim trabalharam juntos em Nova York, nos Estados Unidos, e em Genebra, na Suíça.
38- Ministro da Defesa desde julho de 2007, o gaúcho Nelson Jobim permanece no cargo. Advogado, ele se graduou em ciências jurídicas e sociais e foi deputado federal por dois mandatos pelo PMDB. Entre 1995 e 1997, foi ministro da Justiça do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso. Também integrou o quadro de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e chegou à presidência da Corte em junho de 2004.
39-O baiano José Sergio Gabrielli, de 61 anos, preside a Petrobras desde julho de 2005 e foi mantido no cargo por Dilma. Sua gestão à frente da empresa ficou marcada pelas descobertas de jazidas de petróleo na camada pré-sal. Antes de assumir o comando da estatal, ele era o diretor financeiro e de Relações com Investidores. Gabrielli é economista e Ph.D. pela Boston University, nos Estados Unidos.
40- Maria Fernanda Ramos Coelho deve permanecer no comando da Caixa Econômica Federal, que assumiu em março de 2006. Natural de Recife (PE), ela tem 49 anos e fez carreira no banco, tendo atuado como gerente-geral em agências e nas superintendências de desenvolvimento econômico e social e de estratégias. Maria Fernanda estudou jornalismo e se especializou em Finanças Empresariais e Gestão Pública.
Fonte: http://www.folha.uol.com.br/
http://noticias.r7.com/
Foto: Jorge Araujo
Poema Falado: Morte e vida severina (prólogo)
Um dos grandes nomes da poesia brasileira do século XX, João Cabral de Melo Neto, nasceu no Recife no dia 09 de janeiro de 1920. Seus primeiros dez anos de vida foram praticamente passados no engenho da família, em São Lourenço da Mata-PE. A infância à beira do rio Capibaribe o marcaria para sempre. Os trabalhadores da fazenda de seu pai lhe traziam folhetos de literatura de cordel, assim teve seu primeiro contato com a literatura. Sem saber ler, esse homens o escalavam para sessões de leitura nos momentos em que não estavam trabalhando nos canaviais.Na juventude, já no Recife, ao ler Manuel Bandeira e Mário de Andrade pela primeira vez, ficou aliviado com a possibilidade de ser poeta sem escrever como Olavo Bilac. Até então, tinha horror à poesia por só ter tido acesso aos poetas parnasianos. “Aquilo me dava nojo”, diria mais tarde.
Mudou-se para o Rio de Janeiro com pouco mais de 20 anos. Aproximou-se do primo Manuel Bandeira, 34 anos mais velho, e também ficou amigo de Carlos Drummond de Andrade, a quem pediu para ser apresentado e apontaria depois como seu grande mestre na literatura brasileira.
O escritor e crítico literário, membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Carlos Secchin, que melhor analisou a obra de João Cabral, segundo o próprio poeta, avalia que Cabral é “o último grande clássico da nossa poesia, na seqüência de Bandeira e Drummond”.
Para ter tempo e estabilidade financeira para ler e escrever, João Cabral escolheu a carreira diplomática. Em 1944, prestou exame para o Itamaraty e foi nomeado diplomata em dezembro de 1945 – profissão que seguiu por mais de 40 anos e lhe proporcionou grandes oportunidades culturais. Morou em vários países. A Espanha foi o primeiro deles. E também a primeira viagem internacional do poeta, aos 27 anos. Viveu ainda na França, em Portugal, na Suíça, no Senegal e em Honduras. As viagens e as mudanças constantes eram uma obrigação profissional e o deixavam tenso, pois tinha medo de avião!
No documentário Recife/Sevilha – João Cabral de Melo Neto, dirigido por Bebeto Abrantes, sua filha, a cineasta Inez Cabral, conta que ele temia morrer em um desastre aéreo e por isso preferia fazer as viagens sozinho. A família ia depois. João Cabral também não gostava de se envolver com a parte prática das mudanças, deixava essa tarefa para a esposa, que tratava de organizar tudo enquanto ele esperava no hotel.
Nenhum país o marcou tanto quanto a Espanha. O homem e as manifestações culturais do país o fascinavam, mais precisamente a cidade de Sevilha, onde foi cônsul-geral entre 1962-1964. As touradas também despertavam o seu interesse. Em certa ocasião, o poeta Ferreira Gullar o acompanhou para conhecê-las. “Eu achei aquilo de um sadismo imenso, mas ele gostava”, revela Gullar. “Para ele, era a vitória da razão contra a animalidade”, completa.
Na casa de João Cabral, em Barcelona, Gullar perguntou o porquê de tantos quadros concretistas na sala. Cabral respondeu que precisava de alguma coisa que tivesse ordem, já que a sua cabeça era uma grande confusão. “Ele não era formalista porque queria. O que ele tinha era uma necessidade de ordem. Queria se livrar da sua instabilidade emocional através de coisas concretas. Por isso mesmo, para entender João Cabral, é preciso entender como ele era, e não julgá-lo pelas coisas que se diziam a seu respeito”, conclui.
João Cabral tinha como diferencial a construção de sua poesia. Achava que ela precisava ser feita arquitetonicamente, tal como a flor: não precisava ser perfumada ou cheia de sentimentalismo derramado. Conhecido como o Engenheiro das Palavras, era contra a espontaneidade. “Da primeira palavra à última, todas elas têm que ter um sentido, de forma que a primeira é tão difícil quanto a última”, explica o próprio poeta em cena do documentário Recife/Sevilha.
O jornalista e biógrafo José Castello esteve com João Cabral em 21 longos encontros para escrever o livro João Cabral de Melo Neto – O homem sem alma. Ele explica que o poeta criou um mito em torno de si. “O homem sem alma (alma como mundo interior, e não no sentido religioso), seco, contido e cerebral, era apenas uma casca, uma armadura. Bela armadura, aliás, que lhe rendeu poemas extraordinários. Mas, dentro de João, e seus poemas, os sentimentos, os conflitos e a desordem ferviam”, explica o jornalista.
Castello conviveu com Cabral de 07 de março de 1991 a 06 de abril de 1992, quando o poeta, já tendo encerrado sua carreira diplomática, vivia em um apartamento na praia do Flamengo, no Rio de Janeiro. Nessa fase, João Cabral estava com a saúde frágil e sofria de uma depressão a qual preferia chamar de melancolia. “Quase não saía mais de casa e, por causa dos problemas de visão, não via mais futebol na TV, o que adorava fazer. Não suportava mais ler literatura, porque se emocionava demais. Tentava ler ensaios de geografia ou de história, mas até eles o perturbavam. Estava com a sensibilidade à flor da pele”, conta.
A solidão e o vazio eram enfrentados na companhia das pessoas que o visitavam. João Cabral não acreditava em psicanálise, pelas más lembranças de um período de seis meses que passou internado em um sanatório, na juventude, por sugestão de um primo médico, para tentar se livrar das constantes dores de cabeça que sentia. Segundo dizia, elas começaram quando, aos 16 anos, foi rejeitado para um trabalho como jornalista.
Durante 50 anos, essas crises constantes de enxaqueca o acompanhariam e a aspirina seria sua grande compulsão. A dor só desapareceu em 1986, quando foi submetido a uma cirurgia de emergência por problemas no estômago e cortaram-lhe o nervo simpático. Já a melancolia o acompanhou até o fim da vida. Teria começado quando em 1952, foi acusado de subversão por Carlos Lacerda [governador do Rio], por ter escrito ensaio sobre o escultor e pintor espanhol Joan Miró. “Talvez por ter sido visto como alguém que eu não sou”, disse Cabral a José Castello.
Seus últimos anos foram de grande vazio por conta de uma doença degenerativa que o fez perder a visão. Considerava a cegueira castigo, ela o privava das duas coisas que mais gostava de fazer: ler e escrever. João Cabral de Melo Neto morreu no dia 09 de outubro de 1999, aos 79 anos, no apartamento em que morava, na praia do Flamengo, na zona sul do Rio.
O autor de Pedra do Sono (1942), Os três mal-amados (1943), O engenheiro (1945) e Psicologia da composição (1947) ficou impressionado ao ler uma reportagem informando que a expectativa de vida na Índia era de 29 anos e no Recife, 28. Escreveu, então, O cão sem plumas, publicado em 1950. A partir daí, dizia, Pernambuco não o largou mais. Sua obra completa foi reunida e publicada em 1994.
Cabral considerava o clássico Morte e vida severina, de 1956, uma obra menor, que não chegava a ser poesia. Era “apenas” um monólogo-diálogo, apesar de ser sua obra mais popular. Segundo Antonio Carlos Secchin, “ele propositalmente desvalorizava Morte e vida severina, talvez para chamar a atenção para outros títulos da sua obra. Um poeta de sua estatura não pode mesmo se ver reduzido a um só livro, ainda que seja magistral e de merecido sucesso, como esse título inesquecível” (por Daniele Martins para Revista da Cultura – Edição 31 – Fev/2010).
Por discordar plenamente do João Cabral, o Bienvenue-Ami apresenta nesse mês o clássico universal Morte e vida severina (prólogo), o primeiro Poema Falado de 2011, para iniciar o ano em grande estilo. A base do Poema Falado é o trecho inicial da minissérie produzida em 1981 pela Rede Globo de Televisão. O poema é interpretado pelo grande ator brasileiro José Dumont. Boa audio-leitura!
“O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mas isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem fala ora a Vossas Senhorias ? Vejamos : é o Severino da Maria do Zacarias, lá da Serra da Costela, limites da Paraíba. Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com o nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra, magra e ossuda em que eu vivia. Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue, que usamos tem pouca tinta. E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual mesma morte severina: que é morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida). Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima a de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar algum roçado da cinza. Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possas seguir a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra”. sábado, 18 de dezembro de 2010
Poema Falado - O Menino Jesus

sábado, 6 de novembro de 2010
Poema Falado: Se eu morresse amanhã.
Não é a primeira vez que o tema morte aparece nesse espaço. Como já foi dito em outra ocasião, morrer é um verbo intransitivo que denota perda da vida, da existência. Para uns morrer é o fim, conforme definiu Heidegger ao escrever que a morte é a “nulidade possível das possibilidades do homem e de toda forma do homem”. Para outros, porém, morrer significa renascer para outra vida, como a borboleta renasce quando morre o casulo, a semente ao germinar a árvore ou o ovo ao romper-se em ave. Seja como for, ninguém é indiferente à morte, a única e inexorável certeza de nossas existências. No mês em que se homenageiam todos aqueles que se foram e deixaram profundas saudades, o Poema Falado trás o texto “Se eu morresse amanhã”, escrito por Álvares de Azevedo: “Se eu morresse amanhã, viria ao menos / Fechar meus olhos minha triste irmã; / Minha mãe de saudades morreria / Se eu morresse amanhã! /Quanta glória pressinto em meu futuro! / Que aurora de porvir e que manhã! / Eu perdera chorando essas coroas / Se eu morresse amanhã! / Que sol! que céu azul! que dove n'alva / Acorda a natureza mais loucã! / Não me batera tanto amor no peito / Se eu morresse amanhã! / Mas essa dor da vida que devora / A ânsia de glória, o dolorido afã... / A dor no peito emudecera ao menos / Se eu morresse amanhã”. Característico do período romântico, o texto é dito pelo saudoso Paulo Autran e vem acompanhado da maravilhosa música do André Sperling, Tristes Dias. Boa leitura audiovisual (por Sílvio Benevides).