segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Lua adversa(Cecília Meireles )






Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Por Nossa Colaboradora Bel 3 Poemas





Se ela quisesse


Se ela tivesse
A coragem de morrer de amor
Se não soubesse
Que a paixão traz sempre muita dor
Se ela me desse
Toda devoção da vida
Num só instante
Sem momento de partida

Pudesse ela me dizer
O que eu preciso ouvir
Que o tempo insiste
Porque existe um tempo que há de vir
Se ela quisesse, se tivesse essa certeza
De repente, que beleza
Ter a vida assim ao seu dispor
Ela veria, saberia que doçura
Que delícia, que loucura
Como é lindo se morrer de amor
REFERÊNCIA: Vinícius de Moraes em Poesia Completa e Prosa “Cancioneiro” editora nova aguilar 1998



CONFISSÃO

Sejamos sinceros,
meu bem,
dispamos o pijamadas mitologias:
a eternidade não conhece o amor.



O amor também não sabe
verdadeiramente
o que é o amor


e, no fundo, nós nunca acreditamos muito
em parto
sem dor.

REFERÊNCIA: Iacyr Anderson Freitas em A soleira e o Século 2002



LXII


Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.


Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.
Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.


REFEFÊCIA: Hilda Hist em Amavisse de 1989

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Plagiando a saudade de lá estou com saudade aqui!!


Saudade.
(Iara Gonçalves!)

Sentimento que acompanha situações diferentes.


Saudade de quem partiu para não mais voltar e deixou lembranças doces guardadas como tesouro em nossos corações.




Saudade dos amores que perdemos e gostaríamos de ter guardado para sempre.


Saudade dos momentos que vivemos e das coisas que fizemos, e de muitas outras coisas que gostaríamos de ter feito.




Saudade do amigo que aos poucos foi partindo, como se lhe fosse permitido ir embora e deixar vazio seu espaço em nossas vidas.




Saudade para sempre, aquele sentimento que volta e meia nos faz parar no tempo e sussurrar ao vento, para que ele leve ao ouvido de quem perdemos, as palavras mágicas que acreditamos ser capazes de aliviar a saudade:

Volta logo, volta.







Acalanto
(Ada Ciocci.)

Vai amado.
Busca por onde quiseres,
com quem quiseres,
como quiseres,
o prazer.
Até mesmo,
aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor.
E, se por acaso te cansares e,
do compromisso que um dia nos uniu te lembrares,
se desejares, volta.
Serei a que conforta.
Não saberás da dor, da saudade,
das lágrimas sentidas que tua ausência causou.

domingo, 9 de novembro de 2008

MOMENTOS NATIVOS




Walt Whitman
(Tradução: Coccinelle)

Momentos nativos – quando vens a mim – ah vós que aqui estais agora,
Dai-me neste instante tão somente diversões libidinosas,
Banhai-me com o líquido de minhas paixões, dai-me uma vida áspera e rançosa,
Ao dia eu me uno aos elementos da natureza, também noite a fora,
Eu estou para aqueles que acreditam em deleites livres, eu participo das orgias noturnas dos jovens varões,
Eu danço com os dançarinos e bebo com os beberrões,
Os ecos ressoam nossos clamores indecentes, eu escolho alguém frágil para meu amigo querido,
Ele deve ser delinqüente, rude, iletrado, deve ser alguém condenado pelos outros por suas faltas,
Não mais interpretarei papel algum, por que devo exilar-me de meus companheiros?
Oh vocês, marginais de toda espécie, eu não os evito,
Eu estou entre vocês, eu serei vosso poeta,
Estarei para vós mais que para os outros.

Para você lindinha!!!




Eu....
(Florbela Espanca)

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca, Livraria Martins Fontes Editora, 1996 - S.Paulo, Brasil

sábado, 8 de novembro de 2008

Não sei




de Fátima Andersen

Não sei de mim
se daquilo que parece ser
me perdi.

Deixei que a vida me vivesse e,
perdendo-me da vida,
a vida perdeu-se.


E menti muito,
para ser melhor
poeta

sexta-feira, 7 de novembro de 2008



Para Peh e Cocci....Cora Coralina!!!






(Cora Coralina)

Nas palmas de tuas mãos


leio as linhas da minha vida.


Linhas cruzadas, sinuosas,


interferindo no teu destino.


Não te procurei, não me procurastes


– íamos sozinhos por estradas diferentes.


Indiferentes, cruzamos


Passavas com o fardo da vida...


Corri ao teu encontro.


Sorri. Falamos.


Esse dia foi marcado com a pedra branca


da cabeça de um peixe.


E, desde então, caminhamos


juntos pela vida...










Saber Viver


(Cora Coralina)




Não sei... Se a vida é curta Ou longa demais pra nós,


Mas sei que nada do que vivemos Tem sentido,


se não tocamos o coração das pessoas.




Muitas vezes basta ser:


Colo que acolhe,


Braço que envolve,


Palavra que conforta,


Silêncio que respeita,


Alegria que contagia,


Lágrima que corre,


Olhar que acaricia,


Desejo que sacia,


Amor que promove.


E isso não é coisa de outro mundo,


É o que dá sentido à vida.


É o que faz com que ela


Não seja nem curta,


Nem longa demais,


Mas que seja intensa,


Verdadeira, pura...


Enquanto durar





Por nossa colaboradora Bel 3 lindos poemas:


Poema da Eternidade

Eternidade...
Os que vão morrer te saúdam
Com as mãos crispadas de frio
E os olhos vidrados pela contemplação da noite;
Nós que sentimos a solidão crescer na alma,
Planta vinda das raízes do ser,
Regada pelo pranto que nunca chega aos olhos;
Nós que possuímos a intuição do efêmero,
A seiva das árvores seculares
E a tristeza dos lobos da floresta;
Nós que deixamos nossos corpos
Plantados como marcos
À beira das estradas;
Nós, os transitórios caminheiros,
Que morremos na arena do espaço
Dilacerados pelos búfalos do tempo;
Nós, os escravos da vida e o alimento da morte,
Que entramos no anfiteatro de pedra
Com os pulsos atados pela dúvida,
Com os olhos cobertos pela poeira dos séculos
E a palavra cimentando os lábios partidos
-Nós, os mortos de amanhã,
Te saudamos,
Primeira e última Rainha do Silêncio!

Paulo Bonfim em 50 Anos de Poesia pág. 63 de 2000




PRESENÇA



É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos

...É preciso que a tua ausência trescales

utilmente, no ar, a trevo machucado,

as folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo

...Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janelae

respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida

...Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato

...E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


Mario Quintana em Apontamentos de História Natural de 1976




Amém


Hoje acabou-se-me a palavra,

e nenhuma lágrima vem

Ai, se a vida se me acabara

também.



A profusão do mundo, imensa,

tem tudo, tudo - e nada tem.

Onde repousar a cabeça?

No além?



Fala-se com os homens, com os santos,
Consigo com Deus

...E ninguém entende o que se está contando

e a quem...



Mas terra e sol, luas e estrelas

giram de tal maneira bem

que a alma desanima de queixas.

Amém.


Cecília Meireles em Vaga Música de 1942

terça-feira, 4 de novembro de 2008




Poemas dos Dois Exílios


Análogo começo

(Fernando Pessoa)


Análogo começo.

Uníssono me peço.

Gaia ciência o assomo

— Falha no último tomo.




Onde prolixo ameaço

Paralelo transpasso

O entreaberto haver

Diagonal a ser.




E interlúdio vernal,

Conquista do fatal,

Onde, veludo, afaga

A última que alaga.




Timbre do vespertino.

Ali, carícia, o hino

O utonou entre preces,

Antes que, água, comeces.



segunda-feira, 3 de novembro de 2008




A contribuição de Coccinelle para o blog‏.
Um verso que é pura lascívia dedicado a BEL.

Como Adão ao amanhecer

Como Adão ao amanhecer
Deixando a sombra dos arvoredos, refrescado pelo sono,
Observa-me quando eu passar, ouça minha voz, aproxima-te
Toca-me, coloca a palma da tua mão sobre meu corpo quando eu passar
Não tenhas receio de meu corpo.

Walt Whitman (Folhas da relva / Leaves of grass). Tradução Coccinelle.